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A história do mundo vista pela tragédia

* Paulo Sérgio Leite Fernandes
A história do mundo vista pela tragédia

Folha de São Paulo – Divulgação

 


                Há quarenta anos, fiquei doente. Coisa raríssima. Creio que se deitar outra vez por razão outra que as preferidas, não levanto mais.  De qualquer forma, adoeci enquanto jovem. Tinha vinte e sete anos e uma vontade imensa de ser escritor. Morrer sem escrever um livro parecia ofensa indescritível. Assim, pedi caneta e papel. Um mês depois, sarado, tinha duas centenas de folhas manuscritas ao lado da cama. Dei-lhes nome (Tóxicos). Não tinha dinheiro para pagar a impressão. Encontrei, num bondoso editor que se encarregava da “Sugestões Literárias” (Ali conheci Juarez de Oliveira, hoje um mago da editoração), um estimulante amigo. O livro saiu. Havia sido datilografado por colaborador estimado que, em recompensa, ganhou co-autoria. Vai daí, meses depois, um carioca chamado Nilo Batista teceu comentários não muito edificantes sobre a obra, escrevendo, em tom gozador, haver no livro um capítulo bastante químico  afirmando que “a história da humanidade era a história do vício”.  O livrinho encetou vida própria (Todo livro é assim. Pára na biblioteca de um Mindlin ou descansa honrosamente o lombo num sebo). Fiquei envergonhado com a crítica. Afinal, Nilo, o Batista, era um crítico considerado em Copacabana. Críticos escrevem pouco, ou nada, mas têm peso, como os colunistas sociais. Comecei a procurar exemplares nas livrarias, destruindo-os. Certo dia, entretanto, alguém precisava obter louvor intelectual para um registro qualquer no MEC. Encomendou uma obra a escritor fantasma. Este meteu ficha e decalcou uma ou outra parte de “Tóxicos”, sem remissão ao autor. Mais tarde, outro jurista, este último conscientemente, fez referência a uma invenção qualquer que eu criara nos devaneios gerados pela enfermidade (É bom inventar, mesmo sendo mais difícil do que copiar).  Assim, embora não sendo um clássico, o livreto ganhou dignidade. Quanto a Nilo Batista, deixou a crítica e foi até governador do Rio de Janeiro (haveria homônimo?), circunstância hoje perigosa, diga-se de passagem.

                 A vida é assim.  Vai e vem, como a roda de uma carroça, ou as marés (Vinicius?). Li hoje, em jornal de grande circulação, que a história da humanidade pode ser examinada sob muitas facetas, sem exceção das pestes. Há, aliás, a foto de uma pintura representando pedaço de drama assemelhado. Já se vê que o ex-governador e ex-crítico tinha razão. Meu capítulo era químico, ou botofálico, mas extremamente correto. Digo-o quase meio século depois, mas com a mesma alegria geradora da crítica feita pelo censor ocasional.  Apreciações negativas não fazem bem algum.Entretanto, se e quando chegam ao mundo, devem concretizar-se com a certeza do retorno. Como se vê, o penalista carioca virou político. Não vigia mais . De político, volta ao jurismo, a menos que, insisto, tenha clone na praça. O escritor moço não morreu. Ganha a vida soltando gente dos presídios e dando uma ou outra cotovelada, sempre usando caneta (não bic, que detesto). A carroça vai rangendo pela estrada.  Faz “nhoc, nhoc, nhoc” e devolve as pedradas deixadas entre seus aros. É pedagógico e faz bem a todos.     De certa forma, este “ponto final” é elogioso. Vige, na profissão, o ditado:”Falem mal, mas falem de mim”.

 * Advogado criminalista em São Paulo há quarenta e dois anos. Esta crônica é personalíssima. Retiro meus títulos.

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