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Briga Interna na OAB-VI

* Paulo Sérgio Leite Fernandes
Briga Interna na OAB-VI
(Ou “A herança de Rebecca”)

 


               Em Osasco, em 23 de julho passado, houve sério incidente envolvendo duzentos e cinqüenta ou trezentos advogados: policiais militares, por ordem de juiz, pretendiam impedir-lhes a entrada no fórum.  O episódio é conhecido. Foi noticiado por “site” importante (Consultor Jurídico).  Precisei estar lá, por força de atribuições que tenho. Não foi tarefa agradável, certamente, arrostar a barreira formada pela polícia fardada. Esta, aliás, não tinha culpa alguma no evento, porque cumpria ordens, comportando-se dentro dos padrões. Houve um soldado, já disse em outra oportunidade, que passou perto do desequilíbrio, mas ficou na tangente.

               Aquele acontecimento serviu para demonstração de que os advogados exigem respeito às prerrogativas.  As ofensas se avolumam até o ponto de se tornarem insuportáveis. Aí a panela transborda e as coisas se acidulam. O incidente, entretanto, já passou. Há seqüelas a aparar em Osasco. O ambiente, lá, já não era bom. Pior ficou. Deve-se analisar, aqui, outra faceta.  Realmente, todos os candidatos à presidência da Seccional paulista da O A B. receberam igual convite para aquela festa cívica que teve um aspecto bonito. Há muito tempo, aliás, não se via o hino nacional entoado com tamanho vigor por aqueles que  acompanhavam , em direção ao Palácio da Justiça, as bandeiras do Brasil e da  OAB. Vi, nas lideranças, dois pretendentes ao comando paulista da Corporação. Os demais não compareceram, não por receio, certamente, mas por estarem em campanha no interior do Estado. Houve, depois, a divulgação de algumas fotos.  Com surpresa, percebi que as cenas da passeata haviam sido estrategicamente registradas, porque havia, do outro lado da rua, um vistoso “Outdoor” mostrando a imagem de um dos candidatos presentes.Fiquei embaraçado, porque o cartaz estava ao fundo, exatamente sobre minha cabeça, Não gostei. Pareceu-me que a foto e seus dizeres sugeriam que este velho advogado sabia da propaganda.  A sensação chegou aos poucos, depois de passado o calor da demanda. Solidificou-se dois dias depois. Precisei ir a Osasco, atendendo a convite para entrega de carteiras a novos advogados. Alguma coisa havia mudado: o “outdoor” não estava mais lá. Havia, sim, uma propaganda de uma universidade qualquer.  Daí, não gostei mesmo. porque a passeata,    ato simbólico, pela expressão que tinha, ultrapassava qualquer proselitismo, sem exceção do meu, que não costumo misturar coisas.

               As questões ligadas a prerrogativas não têm cor, logotipos ou facções. Creio, mesmo, que deveria haver um protocolo entre os candidatos: em suma, as famílias podem suar sangue nas brigas internas, mas precisam unir-se para enfrentamento da prepotência mostrada pelo inimigo comum.  De outra parte, sinto um pouco de vergonha no entrelaçamento de campanha eleitoral com um comportamento extremamente puro na rudeza daquela visita dos advogados ao fórum. Esclareço, portanto, cobrado pelos candidatos, que não conhecia os prolegômenos e não aderiria aos mesmos, embora louvando o comparecimento do pretendente referido, corajoso, é claro, pois um tresloucado qualquer poderia desequilibrar-se, embora fugindo à rotina  da gloriosa polícia militar paulista.

               No tempo da cavalaria andante, os combatentes entravam na liça e escolhiam armas: a acha para um, a lança para outro, o machado para um terceiro, mas sempre em condição de relativa igualdade. Há, de um e de outro lado, apoios diversos. Se e quando precisar definir-me, á disse, quero saber dos dinheiros e dos usos daqueles que ficam, na paliçada, estimulando seus campeões. Lembro-me de Ivanhoé.   Não tinha como adquirir armadura, espada e cavalo. Os comerciantes não acreditavam nele, porque não tinha avalista. Apareceu, então, Rebecca, com um estojo que continha as jóias da mãe. Deu-as ao cavaleiro empobrecido. Este pôde, assim, defender a honra da rainha e vencer o torneio. O grande problema, na metáfora, é a dimensão da moça que se apaixonara por Ivanhoé.  Vertendo o exemplo para a disputa pela O A. B., todos os candidatos merecerão cornucópias assemelhadas, ou o combate restará menos entusiasmante. Se houver o propalado desequilíbrio nos veludos das pedrarias, deixo a paliçada e fico em casa, desprezando o troar dos clarins. É o preço que pago por ler repetidamente romances de folhetim.


* Advogado criminalista em São Paulo há quarenta e dois anos. Esta crônica é personalíssima. Retiro meus títulos.

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