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A Ratoeira

* Paulo Sérgio Leite Fernandes
A Ratoeira
 


                Na tarde do dia 31 de julho, em Santos, a entrada no Palácio da Justiça se fazia sem extravagâncias. Os advogados, cientes da necessidade de passar pelos detectores eletrônicos de metal, submetiam-se obedientemente ao ritual, vigiados por dois ou três policiais militares. Vai daí, um destes, levando a atribuição além dos tamancos, pôs-se a determinar que as advogadas abrissem as bolsas e mostrassem o que havia dentro. Desconhecendo que a exigência já havia provocado conflito sério em São Paulo, as jovens, segundo consta, não esperavam ordens. Exibiam espontaneamente o conteúdo de suas pastas de trabalho. Tal submissão gerou neste cronista, assim que soube, série grande de reflexões condicionadas à irredutível relação de causalidade entre um pensamento e outro próximo. Estava de paletó e gravata. Comecei a contar meus bolsos: dois laterais, na calça, mais dois bolsinhos destinados ao relógio (uso um cebolão de prata. Faz um “tic tac” incomodativo, nas audiências); a calça, atrás, tem outros dois para a carteira de dinheiro e documentos. Ainda existe quem ponha moeda corrente ali, porque não existem, hoje, batedores de carteiras. A arte exige habilidade que os ladrões, agora, não têm paciência de adquirir.

               Passando à camisa, contei outro bolso, no peito, à esquerda. O meu tem monograma. Quem sabe, seria esta, na atualidade, a única finalidade. Fui ao paletó: dois bolsinhos no interior, embaixo, outro par à direita e à esquerda, sobre os lados do coração, mais um externo, perto do ombro esquerdo. Antes que me esqueça, o paletó, junto às abas, mantém mais dois. Contei, assim, salvo engano, 14 depósitos de objetos diversos. Ainda entranhado nos reflexos condicionantes, fiz pequenos inventários das coisas que costumo carregar comigo: caneta de boa qualidade. Tenho 237. Conforme a autoridade com quem vou me encontrar, escolho uma de prata, bem elegante, ou uma pesadíssima “Mont Blanc”, das maiores que a fábrica já produziu. Nos velhos tempos, utilizava canivetes, costume herdado do meu avô João Leitinho, de Muzambinho, Minas Gerais. João Leite o usava para picar fumo. Morreu como Freud, de câncer na boca, eis a única ligação entre os dois. Freud era analista e meu avô tinha gênio ruim.

               Os bolsinhos da calça guardavam moedas. Aqueles internos, do paletó, servem a um ou outro documento e abrigam as canetas. Os bolsos internos ocultavam o maço de cigarros. Houve época em que eu fumava cinco maços por dia. Larguei de vez há quinze anos, não para salvar a vida, mas cumprindo promessa (nunca se sabe. Na dúvida, a gente paga o preço). Aqueles bolsos da calça não costumam servir a finalidade alguma. Já tentei usá-los para o celular, mas o incômodo objeto gera protuberância e machuca as partes. Isso significa, sem pesquisas mais aprofundadas, que o ser humano é polimorfo. Segue pela vida numa autêntica metalização. É metal pra todo lado, isso sem contar uma ou outra prótese plantada num joelho, numa vértebra ou na boca. Tocante às mulheres, sofistica-se o raciocínio: o batom é indispensável. Vem do tempo de Cleópatra, ou mais além; canetas, lápis para sombrancelhas, tesourinhas, agulha e linha, lencinho perfumado, o terço ou amuleto ganho da avó, a agenda de anotações, o telefone no vibrador, o panqueique (a grafia é outra, mas não gosto do Bush), alguns acessórios íntimos, porque os comportamentos hormonais são diferentes dos nossos. Além disso, são mais higiênicas do que nós homens…

               Afastando as divagações, voltei ao Fórum de Santos e ao musculoso trio de policiais militares postos a vigiar os advogados, ao lado do portal elétrico. Alguém me disse que uma das advogadas se recusou terminantemente que os beleguins intrometessem as mãos peludas (sem ofensa) dentro de sua pasta de trabalho. Era uma colega baixa, ruiva, postando-se, dignamente, com expressão determinada: “– Tira a mão daí, aqui dentro nem meu marido bota a mão! –”. O PM insistiu. A advogada chamou a polícia. Circunstância estranha, certamente, porque ameaçava virar briga de polícia contra polícia, a menos que o juiz diretor do fórum, que deve ser muito equilibrado, pois se desequilibrado fosse diretor não seria, tenha interferido pondo ordem na casa que é dele mas que é dos advogados também. A outra solução: coloca-se dentro da pasta uma boa ratoeira. Desarmada, é claro, para que não se diga tratar-se de antecipação de legítima defesa, como aquelas cercas postas nos muros do granfinos ou nos portões das mansões enricadas:                “- Cuidado com a eletricidade -”. Ou então: “- Cão bravo. Ele morde – ”. Depois disso, é abrir a bolsa. A mão que entrar lá corre o risco da incerteza. Arredondo, sem que haja aparente ligação entre um e outro pensamento: foi por isso que parei de fumar. De repente, o maioral executava a sentença e alguém perdia o dedo …

 * Advogado criminalista em São Paulo há quarenta e dois anos. Esta crônica é personalíssima. Retiro meus títulos.

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