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A Saca de Café e o Pranto dos Militares

A SACA DE CAFÉ E O PRANTO DOS MILITARES

(Por Roberto Delmanto)
Sobre Waldir Troncoso Peres

                Waldir Troncoso Peres, que aos 85 anos nos deixou no último mês de abril, foi o maior advogado criminalista de sua geração. Simples na grandeza, desprovido de vaidade, infenso a honrarias, alegre, afável e acessível a todos que o procurassem, era um orador insuperável, sendo impressionante a velocidade com que seus pensamentos se transformavam em palavras belas e argumentos dificilmente retorquíveis. A esses dotes, aliava conhecimentos profundos não só na área penal e processual penal, mas também de psicologia, de psiquiatria, da literatura brasileira e estrangeira, e, principalmente, da alma humana.

                Afirmou Trotsky, que “o grande orador, quando fala, por sua garganta passa a voz de Deus”.

                Assim era Waldir no júri – “a suprema paixão dos criminalistas”, como ele disse certa vez –, quando sua voz mais brilhava e se agigantava, tornando-se inesquecível para os que o viram atuar na tribuna da defesa ou na assistência da acusação.

                Hábil estrategista, intuitivo, sabia improvisar como poucos. Foi o que aconteceu no julgamento do Delegado Sérgio Paranhos Fleury, acusado de pertencer ao “Esquadrão da Morte”. Fleury tinha sido pronunciado como partícipe da morte de um suposto delinquente, colocado dentro de uma saca de café e jogado em um rio. Para mostrar a inconsistência da acusação, Waldir, em sua defesa, tentou entrar de beca e tudo, no próprio plenário do júri, em uma saca de café semelhante a que teria sido usada no crime e que fôra juntada pela Promotoria. Não conseguindo, provou que mesmo ele, sendo mais magro e menor do que a vítima, cuja altura e peso constavam do exame necroscópico, não cabia dentro dela…

                Além de centenas de júris, Waldir também atuou, com intensidade e igual brilho, durante a ditadura militar, na defesa de civis incursos na antiga Lei de Segurança Nacional perante as Auditorias Militares Federais. O Conselho de Sentença era composto por um juiz togado, chamado auditor, e quatro oficiais. Após a apresentação de razões finais escritas, na sessão de julgamento havia os debates orais. Em uma delas, defendendo um acusado, Waldir superou-se a tal ponto que, pela primeira vez na história das Auditorias Militares, quem estava na platéia viu mais de um militar do Conselho de Sentença chorar…

                Como escreveu Guimarães Rosa, “há homens que não morrem, ficam encantados”. Mestre Waldir – como eu o chamava –, o Espanhol para os mais antigos e íntimos, encantou a todos que o conheceram e, encantado, continuará para sempre em nossa lembrança.

                A seu pedido, na partida para a eternidade, sua família vestiu-o, sereno, com a beca que tanto amava e a que tanto honrou. Com ela – homem essencialmente bom, absolutamente íntegro, amigo, marido, pai e avô afetuoso – e com sua maravilhosa oratória, a esta altura certamente já convenceu e comoveu São Pedro, entrando no Paraíso.

                Lá, haverá de ser o grande defensor dos colegas de ideais e de lutas que um dia forem ao seu encontro…

 (Roberto Delmanto é advogado criminalista, ex-membro do Conselho de Política Criminal e Penitenciária do Estado de São Paulo e autor do Código Penal Comentado, ed. Renovar, 7º ed., entre outras obras
 

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