O ADVOGADO, A MÃE E OS DOIS FILHOS

 

Roberto Delmanto

Dona Luíza ficara viúva cedo, tendo de criar sozinha, com enormes sacrifícios, os dois filhos pequenos: Antonio e José.

 

Embora fosse uma mulher simples e modesta, procurou dar a ambos uma ótima educação, transmitindo-lhes os princípios de honradez e dignidade que eram tão caros a ela e ao falecido marido.

 

O resultado, contudo, foi completamente diverso para cada um deles. Antonio, desde criança, fora estudioso, respeitador, cumpridor de seus deveres; conseguiu formar-se em administração de empresas, tornando-se gerente de uma multinacional. Já José sempre se mostrara avesso aos estudos, rebelde, envolvendo-se costumeiramente em confusões; não concluiu o segundo grau, revelando quando adulto uma autêntica vocação para o estelionato…

 

Meu pai Dante, que não costumava aceitar a defesa de um mesmo acusado mais de uma vez, com pena de Dona Luíza, excepcionalmente defendeu José em alguns processos.

 

A rotina se mantinha: José, “jurando” inocência, comparecia ao escritório, então localizado no 10º andar da rua Senador Paulo Egídio nº 15, no Centro Velho de São Paulo; Antonio pagava os honorários e a mãe vinha periodicamente saber do andamento do processo.

 

Havia um detalhe curioso: Dona Luíza, já idosa, tinha medo de elevador, e meu pai, com seu enorme coração, avisado pelo zelador da sua chegada, descia ao térreo, atendendo-a no saguão do prédio.

 

Certo dia, o zelador veio avisá-lo que a velha senhora lá estava e pediu-lhe que descesse logo, pois ela chorava muito.

 

Ao descer assim que pode, meu pai encontrou Dona Luíza que, abraçando-o, deu-lhe a triste notícia: Antonio, o filho bom, morrera atropelado.

 

E, soluçando, acrescentou com toda a simploriedade: “Eu gostava igualmente dos meus dois filhos e não queria que Deus levasse nenhum deles. Mas se Ele tinha mesmo de levar um, em vez do Antonio, não podia ter levado o José ?”

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