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José Saramago morreu

* Paulo Sérgio Leite Fernandes
José Saramago morreu
(oração fúnebre)


 José Saramago nasceu em 1922. Morreu na madrugada brasileira de 18 de junho de 2010. Quem dorme pouco sabe das notícias antes dos dorminhocos. O escriba sempre procura boas notícias na imprensa em geral, na vizinhança ou na rua. Dificilmente alguém traz convite para um casamento ou batizado. Há quem abra os jornais e vá primeiro ao obituário, caçando sobrenomes conhecidos. Nascer e morrer constituem a maior rotina da humanidade, mas sempre nos surpreendemos quando alguém parte para o outro lado (se lado outro houver). Comparecemos a cerimônias fúnebres que seguem desde a incineração (dita rápida, mas na verdade cheia das milongas) até os ritos específicos da Umbanda. Sempre admirei o enterro dos vikings. Devia ser muito bonito, no meio da tragédia. Não sei se Saramago (o José) já foi enterrado, nem mesmo como e onde o foi. Disseram que estava nas Ilhas Canárias, onde morava (Lanzarote). Era ateu e comunista confesso. Como se faz a inumação de um positivista que não crê em Deus? Há restos mortais, não do próprio, porque mesmo os tecnobiologistas modernos se põem em dúvida sobre a separação cartesiana entre corpo e alma, existindo quem entenda inseparável o binômio. Saramago era patrimônio universal, merecendo honras uníssonas. Tinha família, com certeza. Os sobreviventes, consanguíneos ou amigos, devem estar a chorá-lo de perto, porque, materialista ou não, o corpo de José há de ter um fim definido, independentemente das manifestações de pesar vindas, principalmente, da Portucália. Diferenciados ou não, todos os seres humanos têm história, desde os altos dignatários ao faxineiro humilde. Biógrafos nunca são exatamente fiéis porque, ao lado de fatores absolutamente objetivos, há as apreciações de caráter subjetivo, interpretando-se os atos da vida do biografado à maneira da sugestão de cada qual. Não vale a pena exemplificar, restando dizer que muitos personagens importantes da literatura, das ciências em geral, enfim, se transformaram em lendas transmitidas de geração a geração, compondo-se então uma verdade repleta de fabulações. Tocante a José Saramago, isso há de acontecer, sim, pois morreu um Prêmio Nobel, ressaltando-se que outros escritores igualmente premiados têm suas biografias difundidas aqui e ali.

Este antigo cronista nunca se preocupou em discorrer, tocante a escritores célebres, sobre os títulos e a extensão das obras produzidas. Basta afirmar, aqui, que do José Saramago leu quase tudo, ou seja, acha que leu quase tudo, passando um bom tempo depois das leituras a tentar interpretar o que se encontrava atrás daqueles parágrafos às vezes extensos, sem pontos, vírgulas ou maiúsculas, com que o escritor demonstrava, de certa maneira, algum desprezo pelas recomendações da ortografia, sem exceção das obras últimas postas em símbolos anteriores ao Acordo Ortográfico, obedecendo-se a expressa determinação sua.

Há escritores chatos, embora endeusados por muitos. Este vetusto cronista confessa tentar, já faz mais de 50 anos, ler Ulisses, de James Joyce, havendo época, quando moço vaidoso, de levar o calhamaço no sovaco em viagens de avião, a mostrar cultura a outros viajores. Desistiu. Mas, com certeza, leu o suficiente para precisar, hoje em dia, usar óculos com lentes grossas assemelhando-se a fundo de garrafa, não se arrependendo do esforço feito para assimilar os símbolos gráficos postos a 30 cm de distância. Isso lembra “Ensaio sobre a Cegueira” e “Viagem do Elefante”, não por serem os livros demonstrações relevantes da genialidade do autor, mas porque o primeiro adverte o teimoso leitor de que a visão se torna embaçada e o segundo compõe, num quadro posto na parede, uma imagem que um paquiderme (um elefante) divide espaço com seres humanos, ligando-se o pôster não a Saramago, mas ao filme “La Nave Va”, de Fellini. O cronista tem na memória, ainda, a imagem do navio que, em “La Nave Va”, trazia um elefante no porão, contracenando no entremeio com passageiros, cada um com seus dramas particulares. Já se percebe que há uma ligação de causalidade muito remota entre aquilo que se lê e aquilo que a própria vida traz ao leitor. Dentro de tal contexto, o cronista embola, também, mesmo não havendo relação estreita em tudo, José Saramago (“Memorial do Convento”), Jorge Amado (“Dona Flor e seus Dois Maridos”) e o casal de cães que, meditativamente, está a olhar o dono enquanto as linhas são postas no papel. Não se entenda que o comentarista está a se desequilibrar. Há uma lógica muito razoável nas premissas desta oração fúnebre: sempre entrelacei personagens principais de “Memorial do Convento” e da citada “Dona Flor”. Quem já leu os dois livros (e todos os leram, é claro) faria, sem grande esforço, uma ligação entre Baltazar e Blimunda, de um lado, mais Dona Flor e Vadinho, do outro. Aparentemente distanciados, é bom dizer que Flor, depois que Vadinho se foi, contraiu núpcias com o farmacêutico da esquina (o Dr Teodoro), havendo a regra, no casal, do facultativamente às quintas, obrigatoriamente aos sábados e domingos, isto com Vadinho, nu, ou a alma deste, vigiando tudo sentado acima do guardarroupa. Quanto aos dois outros, se a memória do escriba não falha, e não há de conferir mesmo que a imaginação esteja a suprir o esquecimento, Blimunda tinha o dom de conhecer o que se passava na cabeça dos homens. Só perdia o talento provisoriamente se comesse uma códea de pão, à maneira de uma comunhão. Um dia Baltazar sumiu. A moça o viu novamente quando o antigo companheiro estava para morrer, crucificado numa praça pública. Daí, Baltazar, cujos pensamentos achava que Blimunda não sabia, disse à mulher que naquele momento, sim, ela poderia ler-lhe a alma. Blimunda, entretanto, respondeu que já sabia de tudo. Quanto a “Dona Flor e seus Dois Maridos”, de Jorge, o Amado, há uma sutilíssima mistura daquilo que se passa no espírito feminino, aquela confusão entre o homem que a mulher tem e aquele outro que ela queria que lhe viesse. O antigo cronista sempre confunde os quatro, completando um no outro (Baltazar e Vadinho) e uma na outra (Flor e Blimunda)…

Meu casal de cães, que me olha ainda desconfiado, tem o nome dos personagens principais de “Memorial do Convento”. Baltazar é esperto, forte e ágil. Blimunda é gorda e desarrumada, vive fugindo dele, mas os dois se dão bem. No fim de tudo, creio que vou chorar um pouco.


* Advogado criminalista em São Paulo há cinqüenta anos.

3 Comentários sobre “José Saramago morreu”

  1. PSLF disse:

    Comentário para esse vídeo postado no youtube por Gdst45a:

    Blimunda viu pela ultima vez Baltasar, quando este estava para ser queimado numa fogueira do Santo Ofício. Ele não foi cruxificado

  2. PSLF disse:

    Resposta, no youtube, ao comentário de Gdst45a:

    Expliquei bem que para mim tanto faz a fogueira ou a morte na cruz. Eu invento.

  3. PSLF disse:

    Comentário para esse vídeo postado no youtube por fyodental:

    Ele chegou hoje a Lisboa hoje pelas 13h:30m (hora de portugal)…

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