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O Processo (The Trial – Le Procès)

O Processo (The Trial – Le Procès)
(1962)

(Geórgia Bajer Fernandes de Freitas Porfírio)

              Entrevistado pela BBC em 1962, Orson Welles afirmou que o período mais feliz de sua vida havia sido durante as filmagens de “O Processo”. Após cinco anos sem filmar, a produção cara, sem restrições e sem fins comerciais, foi um presente para ele. O diretor pôde contar com atuações de Anthony Perkins, Jeanne Moreau e Romy Schneider. Apesar de todos os críticos indicarem seu filme “Cidadão Kane” como obra-prima do cinema, Orson Welles não teve dúvidas em apontar “O Processo” como filme predileto.

               Produzido com recursos obtidos na França, Alemanha e Itália, “O Processo” estreou em Paris em dezembro de 1962, atingindo o público americano em 1963.

               Orson Welles foi homem multimídia. Produziu, escreveu, dirigiu e atuou, imprimindo originalidade em tudo o que fazia. Ficou gravada na história da mídia americana a radiofonização da “Guerra dos Mundos”, em 1938. A chegada de marcianos em discos voadores, armados com raios letais, causou pânico entre os ouvintes e anunciou, em grande performance, o poder da mídia no mundo contemporâneo.

               O filme, disponível em VHS, é adaptação do livro de Franz Kafka. O escritor é apontado entre os melhores autores do século XX. “O Processo” é um clássico, reconhecido como um dos melhores livros de todos os tempos.

                A versão filmada de “O Processo” procurou ser fiel a Kafka. O argumento é, sem dúvida nenhuma, kafkiano. Algumas mudanças são fruto da interpretação pessoal do diretor e da adaptação da história de 1914 aos anos sessenta.

               O cenário é aflitivo. A Gare d’Orsay, em Paris – de onde várias pessoas eram enviadas aos campos de concentração nazistas e onde, após desativação, em 1939, foram confinados, sucessivamente, prisioneiros da 2ª grande guerra e argelinos (só transformada no maravilhoso Musée d’Orsay em 1986) -, entrou por acaso no filme e garantiu, filmada em semi-escuridão, uma atmosfera soturna e penosa. O escritório do advogado, as salas do tribunal e os inúmeros corredores percorridos por Joseph K. foram filmados lá porque os sets de filmagem na Iugoslávia não haviam ficado prontos. A improvisação, no entanto, foi providencial. O filme não pôde ser rodado na República Tcheca, onde Kafka era ainda um escritor banido. Diversas locações foram usadas em cenas contínuas, mixadas, de forma a criar o ambiente que Kafka descreveu, tais como a escadaria do Palazzo di Giustizia, em Roma, uma fábrica de Milão e as ruas de Zagreb, muito parecidas com as de Praga.

               É um pesadelo. Um homem, Joseph K. (Anthony Perkins), acorda em plena manhã e encontra a polícia em seu quarto. É informado de que será preso. Não lhe apresentam os motivos. O processo corre em segredo. A partir daí K. enfrenta caótica peregrinação. Apontam-lhe pessoas que poderiam influenciar e manipular o julgamento e garantir a absolvição, inclusive um advogado (Orson Welles) antigo, muito versado nos assuntos do tribunal. Ao procurar entender os mecanismos que movem seu processo, K. se torna paranóico e passa a acreditar numa enorme conspiração.

               A atualidade do tema impressiona. O impacto das primeiras cenas é indescritível. O filme tem início com trecho do livro encontrado lá nos capítulos finais. Na cena do livro, após buscar inúmeros aconselhamentos para seu processo, Joseph K. confessa ao Capelão ser este a única pessoa em que pode confiar. O Capelão o adverte: “ – Não se engane!”. E, antes de revelar ser ele o Capelão do presídio, narra a Joseph K. parábola que simboliza os meandros da Lei. A história, contada pela voz de Orson Welles, principia “O Processo”:

               “Diante da Lei, fica um guarda. Um homem, vindo do interior, pede para entrar. Mas o guarda não admite. ‘- Pode ele entrar mais tarde?’ ‘-É possível’, diz o guarda. O homem tenta olhar para dentro. Aprendeu que a Lei deveria ser acessível a todos. ‘-Não tente entrar sem a minha permissão! Eu sou poderoso! E sou apenas o mais subalterno de todos os guardas! A cada sala, a cada porta, há um guarda mais poderoso que o anterior’. Com a permissão do guarda ele senta ao lado da porta e espera. Por anos ele espera. Ele vende tudo o que tem pensando subornar o guarda. Este sempre aceita o que o homem lhe dá para que ele não sinta que não tentou. Fazendo vigília por anos, o homem conhece até as pulgas da gola do guarda. Ficando gagá com a idade, pede às pulgas que convençam o guarda a permitir a entrada. Sua visão é curta, mas ele percebe um brilho infinito ao redor da porta da lei. E agora, antes de morrer, toda sua experiência se reduz a uma pergunta que ele nunca fez. Ele chama o guarda. E o guarda responde: ‘-Você não se cansa, o que quer agora?’ ‘- Todo homem luta pela Lei’. Então, por que nesses anos todos ninguém pediu a proteção da Lei?’ Sua audição não é boa, e o guarda grita em seu ouvido: ‘-Só você poderia entrar. Ninguém mais. Essa porta foi feita só para você. E, agora, eu vou fechá-la’.

               Orson Welles procurou dar ao filme  sentido a partir dos acontecimentos da 2ª Guerra. Evitou lamúrias e mostras de indignação e jamais sugeriu inocência. Anthony Perkins faz um Joseph K. trágico, arrogante e neurastênico. Qualquer um poderia estar sob sua pele. Amigos, inimigos, carrascos e suas vítimas estão ligados pela ambigüidade. Dos recônditos da culpa ninguém escapa.

                Há uma cena em que Joseph K. confessa à senhorita Bürster (Jeanne Moreau): “-É pior quando não se fez nada e se sente culpado. Lembro do meu pai dizer, olhando-me nos olhos: – Vamos, garoto… O que andou fazendo? Mesmo que eu não tivesse feito nada eu me sentia culpado. Sentiu isso? Depois, a professora dizendo que sumira alguma coisa da sua mesa: – Vamos, quem é o culpado? Eu claro, eu me sentia doente de tão culpado. E não sabia sequer o que havia sumido. Talvez seja isso. A menos que seus pensamentos sejam 100% puros, isso se aplica a todos. Até mesmo os santos têm tentações. O que acha?”

               Mais tarde, em outra cena, seguindo um percurso tortuoso, Joseph K. compreende que não é inocente. O advogado, diante do inconformismo do seu cliente com o tratamento que recebia, adverte K., usando a parábola da Lei: “-Doutrinadores entendem que o homem se dirigiu à porta da Lei por vontade própria…”. Joseph K. responde: “-E você está disposto a engolir tudo isso? É tudo verdade?” Advogado: “- Você não precisa aceitar tudo como verdade, apenas como necessário” K.: “- Deus, que conclusão miserável! Converter a mentira em princípio universal! O advogado pergunta se o cliente, ao desafiar o tribunal, num gesto tresloucado, pretendia alegar insanidade. Havia base para a alegação. K. podia parecer acreditar ser vítima de uma espécie de conspiração. K. responde:

 “-Isso é um sintoma de loucura, não é? Advogado: “-Mania de perseguição?” K.: “-Eu não pretendo ser um mártir”. Advogado: “-Nem uma vítima da sociedade?” K.: “-Eu sou um membro da sociedade!”… “Claro, eu sou responsável”.

               No livro, essa conversa se passa entre K. e o Capelão. Quando discutem as diversas interpretações da parábola da Lei, Joseph K. põe em dúvida a atuação do porteiro. O Capelão sustenta que duvidar do servidor da lei está fora do alcance do julgamento humano. Duvidar do porteiro seria duvidar da lei. K. não concorda. Afirma que por esse raciocínio, quem se ampara na lei precisa considerar como verdade tudo o que o porteiro diz. Ao que o Capelão responde não ser preciso considerar como verdade, mas como necessidade. Daí, K. desabafa: “-A mentira se converte em ordem universal”.

               Também o final do livro foi mudado. No livro, Joseph K. se conscientiza de que é inútil opor resistência. Sofre solitariamente a injustiça. É morto a facadas, “- Como um cachorro!”, diz ele. Pensando nos regimes totalitários e em suas incontáveis vítimas, Orson Welles ampliou o significado da morte de K. O acusado não se rende. Os algozes, co-responsáveis, não o matam com as próprias mãos. Joseph K. espera rindo, com desdém. Uma bomba explode. Tudo muito impessoal. Foi cortada uma cena de 10 minutos que tornaria mais fácil compreender o final. K. perguntava a um enorme computador qual seria o seu destino. Veio como resposta que K. não agüentaria, cometeria suicídio. Esta cena, segundo Orson Welles, seria uma das principais, mas foi cortada porque era cheia de humor negro e não acompanhava o espírito do filme. Mas seu intento era mostrar que K. , até o fim, foi livre para recusar o próprio destino.

                              Culpa e injustiça são enquadrados, de forma concisa, fora do plano individual, como um problema difuso, coletivo. Kafka polarizara essa problemática como uma questão entre indivíduo e autoridade. As duas versões se complementam nos tempos de hoje e é por isso que irradiam genialidade.

               Várias foram as leituras que se fizeram das duas obras, muitas completamente alheias ao mundo do direito. No entanto, é na área jurídica que o filme encontra lugar para encorajar reflexões da maior importância. Espalhadas no mundo, muitas universidades usam o filme como material essencial aos debates em aula. Workshops são promovidas sobre “O Processo”. Examinam-se temas como a pena de morte, a burocratização da justiça, os caminhos do direito administrativo.

                Mas é perto do estudo do processo que livro e filme alcançam importância vital, muito especialmente para o processo penal. Ambos incomodam ao revelar, com bastante lucidez, que as instituições, despersonalizadas, permanecem no tempo e que a vida do homem tem duração limitada no tempo e no espaço. A longevidade, por si só, já é uma vantagem. De nada adianta a lei pairar, eterna, sobre todos, se não se considerar que a vida do homem simplesmente acaba, mesmo que ninguém se ocupe de matá-lo.

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