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Em nome do pai (In the name of the father)

Em nome do pai
(In the name of the father – 1993)

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(Geórgia Bajer Fernandes de Freitas Porfírio)

Já foi o tempo em que o pai ensinava a profissão e fazia o filho enxergar o mundo com seus próprios olhos paternos. O filho já não vê no pai sua imagem refletida e o que vê não lhe interessa como promessa do que virá. Desaparece a cumplicidade e surgem, à vista da luta interior, inúmeras e surpreendentes formas de transgressão. Se, por um lado, obediência e dever se tornam incompatíveis com a nova individualidade, admiração e orgulho influenciam o relacionamento dessas pessoas diferentes e podem dar sentido positivo às escolhas pessoais.

 “Em nome do pai”, além de ser a história de quatro irlandeses, conhecidos como “Guildford Four”, injustamente condenados e aprisionados com fundamento no Prevention of Terrorism Act de 1974, editado na Inglaterra para coibir as atuações do IRA, conta a história de pai e filho que, desencontrados no cotidiano, alcançam entendimento comum quando se descobrem desgraçadamente injustiçados.

Guiseppe, pai de família simples, doente por trabalhar inalando vapores de tinta e aparentemente resignado com as injustiças da vida, descobre-se homem forte, de princípios arraigados, firme a ponto de não se deixar vergar. O filho de Guiseppe, rebelde sem causa, ingênuo e inconseqüente, acaba encontrando, nas atitudes do pai, integridade, um norte para resistência equilibrada.

O filme é baseado na autobiografia de Gerry Conlon, um dos primeiros a serem detidos e condenados sob a vigência das leis antiterrorismo inglesas.

Em 5 de outubro de 1974, após explosão no Guildford pub, em Londres, Gerry Conlon, Paul Hill, Paddy Armstrong e Carole Richardson, jovens irlandeses, são presos, torturados, interrogados e condenados à prisão perpétua. Toda a família de Gerry é presa como cúmplice: o pai Guiseppe, a tia Annie Maguire, seu filho de 14 anos e seu marido.

Para mostrar rápidos resultados à população, ensandecida diante dos ataques terroristas, a polícia britânica passa a prender irlandeses sem motivos e sem evidências.

A história da injustiça, do erro judiciário, é tratada como abuso do poder estatal. Não há sublimação nesse particular. Mas nem por isso a luta contra o terrorismo deixa de ser vista com seriedade. A violência dos ataques terroristas é mostrada em igual proporção. O filme é político, engajado, o que o faz se diferenciar de outros do gênero. É possível sentir a violência, o ambiente prisional hostil de forma extrema, sem presenciar ou testemunhar cenas sanguinolentas. Impressiona, por sua beleza, a cena em que, após a ocorrência de uma morte na prisão, todos os presos, como homenagem ao morto, jogam de suas celas folhas de papel queimando na escuridão.

Outra cena merece ser comentada, mas sob enfoque jurídico. No tribunal, após 15 anos de prisão, descobre-se que, entre as provas obtidas mediante procedimento secreto, havia prova da inocência de Gerry Conlon. Essa prova fora surrupiada da defesa, dos autos e do magistrado. Conlon fora condenado ao arrepio da verdade. Se de um lado o segredo fora instalado para assegurar máxima eficiência nas investigações e melhor promover a segurança das pessoas, por outro, a investigação não publicizada, oculta, à sombra, serviu à perversão da própria finalidade, culminando por acobertar a verdade e por transformar inocentes em bodes expiatórios. Fica clara a lição de que todo poder deve ser controlado, sob pena de se tornar abusivo. A defesa social sem limites é arma poderosa, que investe ardilosamente contra a segurança individual.

Verificou-se, no caso “Guilford Four”, que o procedimento inquisitório (secreto para a defesa, sem contraditório e sem participação da defesa na produção das provas) foi insuficiente para garantir a verdade, sendo frontalmente desrespeitoso com os direitos individuais. Mostrou-se, de igual forma, que o procedimento acusatório, puro, utilizado no julgamento (com liberdade para acusar, contraditório e passividade do juiz perante as provas que se lhe apresentam) falhou na tarefa de fazer aparecer a inocência, pois a prova da defesa se encontrava nas mãos da polícia. A desigualdade de forças entre a pessoa física coartada e as instituições, com seu enorme aparato, é elemento a se considerar quando se propugna pela igualdade de armas no processo penal. Daí a necessidade de que intervenha um juiz forte, atuante também para buscar esclarecimento próprio, não só sobre os fatos, mas também sobre os métodos utilizados na formação da prova.

Foi por acaso e por brecha na vigilância dos arquivos que a advogada dos Conlon conseguiu examinar todas as pastas e documentos e se apossar daquele depoimento que inocentaria Gerry Conlon. Em apelação, as palavras da advogada Gareth Peirce não são de indignação, mas reverberam como acusação:

“-Meritíssimo, este álibi de Gerry Conlon foi tomado pelo Sr. Dixon um mês depois que Gerry Colon foi preso. Esta anotação estava com o depoimento nos arquivos. Diz: Não mostrar à defesa.

Quero fazer uma pergunta ao Sr. Dixon. Por que o álibi de Gerry Colon, acusado de matar 5 pessoas não foi entregue à defesa?”

A música confere ao filme uma ambiência triste. Ressona a todo momento a lembrança de que se tratavam de jovens, hippies, irreverentes, pegos no acaso e totalmente expostos, à mercê de uma crueldade inesperada. Toca Bob Dylan, Bob Marley, Jimi Hendrix , Trevor Jones e The Kinks. Bono (U2), Gavin Friday (Virgin Prunes) e Maurice Seezer são os responsáveis pelas três trilhas principais: “In the name of the father” (momentos iniciais do filme), “Billy Boola” e “You made me the thief of your heart” (cantada por Sinead O’Connor nos momentos finais).

            Além da trilha sonora, o filme marca por contar com excelentes atores. “In the name of the father” tira do esquecimento a sensação de ver atuar atores de verdade. Daniel Day- Lewis (Gerry Conlon), formado no teatro, tem estrutura e consistência. O ator ganhou o Oscar de 1989 (por “My Left Foot”) e foi indicado ao Oscar de 1994 por sua atuação no papel de Gerry Conlon. Emma Thompson (no papel da advogada de Conlon) e Pete Postlethwaite (Guiseppe) foram indicados ao Oscar de melhores atores coadjuvantes .

            O diretor é Jim Sheridan, o mesmo que dirigiu Daniel Day-Lewis em “My Left Foot”. Foi indicado ao Oscar pela direção, fotografia e melhor roteiro adaptado. “In the name of the father” ganhou o “Urso de Ouro” no Festival Internacional de Cinema de Berlim.

A história dos quatro ainda não acabou. Gerry Conlon e Paul Hill não se conformam com simples indenização (mais de 500.000 libras). Lutam pela publicidade dos processos indenizatórios nos casos de erro judiciário e esperam pedido de desculpas do governo britânico. Em junho de 2000, Tony Blair escreveu à esposa de Paul Hill, americana, filha de Robert Kennedy, carta de desculpas pelo erro judiciário. Os outros não receberam desculpa alguma e nenhuma ajuda governamental, fora a indenização (segundo o jornal Guardian, de 6 de junho de 2000). Todos, de família ilustre ou não, sofreram o mesmo trauma. Vivem até hoje tendo pesadelos com o passado.

Há cópias em DVD e VHS.

3 Comentários sobre “Em nome do pai (In the name of the father)”

  1. THAIS SILVA disse:

    Lendo esses texto, lembrei da Professora KATIA ( PUC/PR ) , materia Introdução ao Estudo Do Direito, que em 1994, falou da importancia desse filme e nos levou ao teatro para assistir o filme

    Foi uma ótima Professora.

  2. mariana disse:

    esse filme é muito bom, relata os acontecimentos reais pelo IRA naquela época, mostra até onde as pessoas são capazes de ir! esse texto é ótimo, muito bom mesmo!

  3. ney santos disse:

    assisti ao filme, apenas 19 anos depois de seu lançamento, mas é realmente absurdo como essas coisas são atuais,as injustiças nunca tem fim? no Brasil os processos abarrotam as gavetas da justiça,em quanto as cadeias estão super lotadas de ´´ladrão de galinha´´ cumprido´pena junto com grandes nomes do crime,professores, a cadeia alem de não regenerar piora e enclausura inocentes.APRENDI BRASIL

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