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Ilha do Medo (Shutter Island)

Filmes médico-jurídicos
Ilha do Medo (Shutter Island)

 

            Com Leonardo Di Caprio e Mark Ruffalo nos papeis principais, além de Ben Kingsley e Max Von Sydow, Martin Scorsese dirige “Ilha do Medo” filme apresentado, em uma ou outra sinopse, como político. Na verdade, o diretor deve ter usado, no roteiro e nas múltiplas cenas dramáticas, a colaboração de competentes psiquiatras, porque a história, inicialmente posta como se fora aquela de dois agentes federais investigando o desaparecimento de uma paciente internada em hospital de tratamento de doenças mentais, toma rumo que, para o leigo, seria inesperado, mas assumindo logo um contorno perfeitamente delineado para especialistas em Direito Penal e ciências afins. Não vale a pena examinar mais profundamente o contexto do filme referido, bastando algumas considerações concernentes à esquizofrenia, doença mental da época e de hoje, embora o enredo se passe nos idos de 1950. Existem naquele espetáculo cinematográfico algumas hipotéticas semelhanças com o velho manicômio judiciário brasileiro antes denominado “Juqueri” posto logo ali, na cidade de Franco da Rocha, que obteve tal denominação em sintonia com o batismo posto no manicômio já mencionado, sabendo-se que Franco da Rocha foi um dos grandes psiquiatras que o Brasil teve no passado recente. O instituto de doenças mentais “Franco da Rocha” teve péssimo nome. Parece, hoje, estar passando por alguma dose de reabilitação, mas já foi apelidado de “Casa dos Zumbis”, porque os internos eram tratados a poder de medicação pesada e quase só ela. O cronista, alguns anos atrás, ciente de que juristas famosos e médicos diferenciados tinham seus nomes apostos em presídios e hospitais psiquiátricos, teceu severos comentários sobre o costume, que não é bom. Na verdade, é demeritório à memória de um grande homem a colocação de sua identificação no frontispício de instituto penal ou instituição assemelhada. Tais considerações são importantes, opondo-se em via travessa à pretensão por alguns concretizada de retirada de nomes de líderes do autoritarismo brasileiro de ruas, viadutos e quejandos.

            Voltando-se à “Ilha do Medo”, releva notar o preciosismo com que o diretor, muito bem acolitado, repita-se, examina a fabulação criada na mente dos personagens, sendo importante realçar, também, que os anos 50 e, quem sabe, os 60, tinham, por baixo do tapete da psiquiatria, a sugestão à prática de alguns procedimentos cirúrgicos sobre o cérebro dos pacientes, em especial a denominada “lobotomia”. O cronista tem, na sua bibliografia médica, que é vasta, exemplar de obra escrita pelo criador ou principal difusor da técnica. Se a memória não falha, o aplicador maior dessa criação é um português. Para tal cientista, a lobotomia transformava o doente mental em criatura absolutamente passiva, sem ódios, amores ou emoções outras, desprovendo-se inclusive de qualquer agressividade, transformando-se, portanto, em criatura servindo à paz da comunidade.

            Paralelamente à lobotomia, usava-se a eletroterapia (o choque elétrico), com resultados palpáveis na acalmia dos doentes, havendo entretanto efeitos colaterais, pois a intromissão da eletricidade no cérebro da criatura produzia convulsões de menor ou maior importância, podendo até produzir a morte. Em sequência, a eletroterapia foi substituída pela insulina, com resultados análogos e menor risco à saúde dos pacientes. Há, hoje, um retorno muito discreto de defesa dos métodos mencionados.

            Voltando-se ao filme: o tratamento político dado ao mesmo pode ser identificado, quem sabe, em diálogos concernentes à aplicação da lobotomia por governos interessados na supressão de antagonistas recolhidos por atividade subversiva e mesmo de experimentação para fins de estudo da mente humana. Vem a questão em concreto quando se pensa na interpenetração, hoje, de vários setores da psiquiatria, sabendo-se que o exame das interferências produzidas por fluidos liberados pelo sistema glandular tem sido levado a argumentos relevantes na redução ou negação do próprio livre arbítrio, deixando-se de lado, pois muito sofisticada, a questão correspondente à interferência da pródiga medicação posta no mercado farmacêutico mundial.

            “Ilha do Medo” é fantasia, obviamente, mas os homens, enquanto fabulam, antecipam ou imitam a realidade. Quanto ao filme, para que não se perca a originalidade se e quando pretenderem assisti-lo, é quanto basta.

Paulo Sérgio Leite Fernandes

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