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O Nome da Rosa (1986)

O Nome da Rosa
(1986)

O universo (que outros chamam a Biblioteca) constitui-se de um número indefinido, e quiçá infinito, de galerias hexagonais, com vastos poços de ventilação no centro, cercados por varandas baixíssimas. De qualquer hexágono, vêem-se os pisos inferiores e superiores: interminavelmente. A distribuição das galerias é invariável. Vinte estantes, em cinco longas prateleiras por lado, cobrem todos os lados menos dois; sua altura, que é a dos andares, excede apenas a de um bibliotecário normal. Uma das frentes livres leva a um saguão estreito, que desemboca em outra galeria, idêntica à primeira e a todas. À esquerda e à direita do saguão, há dois sanitários minúsculos. Um permite dormir em pé; outro, satisfazer as necessidades fecais. Por aí passa a escada espiral, que se abisma e se eleva para longe. No saguão há um espelho, que duplica as aparências fielmente. Os homens costumam inferir desse espelho que a Biblioteca não é infinita (se o fosse realmente, para que essa duplicação ilusória?), prefiro imaginar que as superfícies polidas representam e prometem o infinito…

 

A Biblioteca de Babel, Jorge Luís Borges

 

O argumento é a Idade Média. Atmosfera e forma de vida do período são explorados e modelados a partir do monastério. Ali se encontrou variabilidade de tipos humanos que, caracterizados, recapturaram a diversidade do pensamento medieval.

         

A temática seduz, principalmente àqueles com sensibilidade voltada para o sombrio.

         

Amantes de Harry Potter e do Código da Vinci viram e reviram, várias vezes, a película.

         

O “Nome da Rosa” não está impregnado de magia ou simbolismo profundo. O espectador, no entanto, é despertado a desvendar crimes envoltos em mistério, propositadamente, tal como Sherlock Holmes. Talvez este fio condutor tenha tornado a obra acessível a todos.

         

O filme foi sucesso nas bilheterias, principalmente nos países que respiram antigüidade.

 

Trata-se de adaptação para o cinema de livro de igual título. “O Nome da Rosa” foi escrito por Umberto Eco.

         

Umberto Eco começou a estudar Direito, curso que abandonou para se dedicar à Filosofia Medieval e à literatura. Tornou-se mundialmente conhecido pelos seus trabalhos em Semiótica. Além de ter escrito livros na especialidade, ensaios e romances, teve obra muito consultada nas Universidades: “Como se faz uma tese”.

 

É sua a idéia de que a tese é fruto de diversão. Talvez por este motivo o autor se preocupe em ressaltar a função libertadora do riso para o trabalho intelectual e se mostre renitente à idéia defendida por um de seus personagens, Jorge Burgos, de que “na sabedoria há tristeza e quem amplia o conhecimento amplia também o seu pesar”.

 

O confronto entre objetivistas e subjetivistas, entre a questão dos universais e a reflexão dos nominalistas, é a base do enredo. Aqueles fundando o conhecimento na crença e aceitando as coisas tal como se apresentavam na aparência, estes investigando além do superficial e incorporando a indagação à atitude de conhecer, o que permitia ver o mundo a partir das singularidades.

 

O personagem Guilherme (Willian) de Baskerville, inglês, franciscano, discípulo de Bacon e amigo de Guilherme de Ockham, sintetizou bem esta nova forma de raciocinar, especulativa, que contrastou com o pensamento escolástico medieval e que fundou a via moderna de pensar.

 

No diálogo travado entre o frade Guilherme e o abade bibliotecário Jorge Burgos, fica evidente o contraste filosófico:

 

JB: “_ O ânimo é sereno somente quando contempla a verdade e se deleita com o bem realizado, e da verdade e do bem não se ri. Eis porque Cristo não ria. O riso é incentivo à dúvida”.

G: “_ Mas às vezes é justo duvidar”.

JB: “_Não vejo razão para isso. Quando se duvida deve-se recorrer a uma autoridade, às palavras de um padre ou de um doutor, e acaba qualquer dúvida. A mim me pareceis embebido de doutrinas discutíveis, como as dos lógicos de Paris…

“G: “_ Não concordo, venerável Jorge. Deus quer de nós que exercitemos a nossa razão em muitas coisas obscuras sobre as quais a escritura nos deixou livres para decidir. E quando alguém vos propõe acreditar numa proposição, vós deveis primeiro examinar se ela é aceitável, porque a nossa razão foi criada por Deus, e aquilo que agrada à nossa razão não pode não agradar à razão divina, sobre a qual sabemos, contudo, somente o que, por analogia e sempre por negação, inferimos dela pelos procedimentos de nossa razão. E então vede que às vezes, para minar a falsa autoridade duma proposição absurda que repugna à razão, também o riso pode ser um instrumento justo”[1].

 

 

A formação acadêmica do escritor conferiu à ficção, paradoxalmente, rigor e veracidade, reforçados pela direção precisa de Jean-Jacques Annaud.

 

A abordagem da sociedade medieval é intelectualmente rica, cheia de referenciais que aos poucos se descortinam.

         

Fazem parte do contexto perseguições religiosas, conflitos entre poderes e disputa por idéias.

 

Ficou curiosamente demonstrada a fragmentação da identidade entre o direito divino, atemporal, e o direito  delimitado no tempo.

 

A ruptura da homogeneidade entre o poder espiritual e o poder temporal, entre a lei divina e a lei institucionalmente imposta foi habilmente sugerida pela dualidade entre o processo de obtenção de provas utilizado pelo Santo Ofício – e confiado aos Dominicanos – e o procedimento especulativo posto em prática por Guilherme de Baskerville, frei franciscano.

 

Um, apesar de institucionalmente aplicado e procedimentalmente evoluído, procurava a verdade de forma ilimitada, por meio de interrogatórios públicos, mas também escusos e secretos. Utilizando-se da confissão e de meios de prova cruéis, procurava confirmar uma verdade já preestabelecida na mente do inquisidor: “sob tortura, ou ameaçado de tortura, um homem não só diz aquilo que fez, mas também aquilo que desejaria fazer, ainda que não soubesse”[2]. Uma verdade que prescindia de pressupostos fáticos e que, objetivando a exculpação, podia ser concebida a partir de desígnios divinos.

 

O outro método buscava a verdade com certa liberdade. Guilherme bem o demonstra a seu discípulo Adso:

 

“Resolver um mistério não é a mesma coisa que deduzir a partir de princípios primeiros. E não equivale sequer a recolher dados particulares para depois inferir uma lei geral. Significa antes achar-se diante de um, dois, três dados particulares que aparentemente não têm nada em comum, e tentar imaginar se podem ser muitos os casos de uma lei geral que não conheces ainda, e talvez nunca tenha sido enunciada”[3].

 

Ainda: “Diante de alguns fatos inexplicáveis deves tentar imaginar muitas leis gerais, em que não vês ainda a conexão com os fatos de que estás te ocupando: e de repente, na conexão imprevista de um resultado, um caso e uma lei, esboça-se um raciocínio que te parece mais convincente do que os outros. Experimentas aplicá-lo em todos os casos similares, usá-lo para daí obter previsões, e descobres que adivinhaste. Mas até o fim não ficarás nunca sabendo quais predicados introduzir no teu raciocínio e quais deixar de fora”[4].

 

Assim é que o espectador é levado a fazer diversas leituras das mortes na abadia, sendo que nenhuma delas é, de início, excluída. As mortes poderiam estar relacionadas:

 

a)-ao cumprimento das sete profecias do apocalipse;

b)-à descoberta, na abadia, de dois ex-seguidores da doutrina de Dulcino que, acusados de saquear e matar pessoas ricas em nome da pobreza, bem poderiam ser responsáveis pelos homicídios praticados naquele rico monastério;

c)-à presença de uma jovem, acusada de praticar bruxaria. Pregava-se que todas as maldições entravam no coração do homem por meio de uma mulher;

d)-ao acesso à biblioteca e à posse de um livro proibido.

 

O interessante é que as mortes, dependendo da forma de conhecimento utilizada (o procedimento inquisitório do Santo Ofício ou o método sugerido por Guilherme de Baskerville), tinham solução diversa. Conforme o critério adotado, as hipóteses eram aproveitadas ou descartadas, o que levava e levou a resultados e desdobramentos diversos.

 

          De um lado, foi retratado o processo inquisitório que, ressalvados os atos de crueldade, trouxe transformações para o processo penal concebidas como evolução frente a outras formas de solução do conflito penal, tais como ordálias, duelos e juízos de Deus. Mas que ainda conservava um elemento místico, indeterminado, preponderante nas acusações de heresia.

 

          De outro lado, mostrou-se o surgir, já no século XIV, de um modelo de conhecimento diferenciado, em que a verdade não era mais o ponto de partida do procedimento e sim o resultado da dinâmica do conhecimento. Tal mudança de perspectiva influenciou o processo penal moderno, a partir do século XIX, e possibilitou afastar a presunção de culpa, presente desde o início do procedimento persecutório. Tal mudança de direcionamento do processo penal – que passou a contar com duas proposições contrárias na origem da persecução (inocência e culpa) -possibilitou a implementação do estado de inocência e a concepção do acusado como inocente até o final do procedimento penal, com direitos subjetivos garantidos no percurso[5].

 

Também interessante enfoque sobre o monopólio do saber faz com que o espectador acompanhe mentalmente, repetindo e atualizando, as observações de frei Guilherme de Baskerville, feitas a seu discípulo Adso, logo após visitar a biblioteca do mosteiro:

 

“_ Onde estão os livros?

Notou que havia poucos livros nas prateleiras? Todos estes escrivães, copistas, tradutores, pesquisadores, pensadores.

Onde estão os inúmeros livros necessários aos seus trabalhos e pelos quais o mosteiro é famoso?”

 

Mais adiante, no púlpito, Jorge Burgos oferece diretamente a resposta, que levamos, muitas vezes, toda uma vida a descobrir :

 

“De nosso trabalho, do trabalho de nossa ordem, e em particular do trabalho deste mosteiro faz parte – aliás é a sua substância – o estudo, e a custódia do saber. A custódia, digo, não a busca, porque é próprio do saber, coisa divina, ser completo e definido desde o início, na perfeição do verbo que exprime a si mesmo. A custódia, digo, não a busca, porque é próprio do saber, coisa humana, ter sido definido e completado no arco dos séculos que vai desde a pregação dos profetas à interpretação dos padres da igreja”…”Ora, meus irmãos, qual é o pecado de orgulho que pode tentar um monge estudioso? O de entender o próprio trabalho não como custódia, mas como busca de alguma notícia que não tenha sido ainda dada aos humanos, como se a derradeira já não tivesse ressoado nas palavras do último anjo que fala no último livro das escrituras: “Agora declaro a quem ouve as palavras de profecia deste livro, que se alguém a ele acrescentar qualquer coisa, Deus lançará sobre ele as pragas descritas neste livro, e se alguém suprimir algo das palavras de profecias deste livro Deus suprimirá a sua parte do livro da vida e da cidade santa e das coisas que estão escritas neste livro!”[6].

 

Para tal fim, o de preservar o poder e a autoridade daquele que sabe, a arquitetura interior da biblioteca é desconhecida de todos os monges. Só a conhecem o bibliotecário e seu ajudante, o qual perpetua o segredo após a morte do bibliotecário, passando-o em seqüência a seu auxiliar. Ninguém deve, ninguém pode e ninguém, mesmo querendo, chegará ao último andar da biblioteca. Só ao bibliotecário restam desvendados os segredos do labirinto, a conservação, a localização e a permissão para a consulta de livro determinado, pois nem todas as verdades são para todos os ouvidos e nem todas as mentiras podem ser reconhecidas como tais. Trata-se de labirinto espiritual e labirinto terreno: é possível entrar, mas é possível não sair[7]. A biblioteca mergulha sua origem na profundeza dos tempos, os livros são registrados conforme as aquisições. A memória do bibliotecário, única fonte de consulta[8].

 

Tantas vezes filme e livro foram invocados por educadores para explicar a necessidade de acesso às fontes do saber. A internet, dizem, de certa forma, democratizou e desmonopolizou este saber mantido oculto no interior das bibliotecas. Hoje, por um simples toque, é possível consultar livros que poucos tinham acesso. Também, por um simples toque, é possível a troca de conhecimentos e idéias que, antes, por via impressa, acontecia após um longo período. Para o bem ou para o mal, acontece a inversão da hierarquia do saber. Vem junto o desconhecimento do passado, um certo desprezo pelo antigo e mesmo a perda do sentido de evolução, de todo um processo de aperfeiçoamento de um saber. Neste contexto, a universidade perde importância. As salas de aula ficam vazias, também nas universidades européias, e ninguém mais se importa com o professor que, como um visionário, parece emitir palavras proféticas, pouco compreensíveis e acessíveis aos ouvidos dos alunos. Voltamos à superficialidade, parece. Não existem mais discípulos versados no saber do mestre, interessados em compreender e conhecer. De seu lado, também não existe o mestre preocupado em formar escola. O saber não é mais monopólio, é egoísta, ensimesmado. O universo está à disposição do conhecimento e, no entanto, tudo depende da identidade do buscador.

 

Umberto Eco tinha 22 ou 23 anos quando leu Ficções de Jorge Luís Borges. Disse que enlouqueceu. Passava noites e noites lendo o livro para amigos. Reconheceu-se no universo de Borges[9].

 

O personagem Jorge Burgos, bibliotecário, cego, mas extremamente sagaz e rápido no que dizia respeito à biblioteca, teve inspiração em Borges.

 

Jorge Luís Borges foi bibliotecário. Contou que seu trabalho e o de outros colegas consistia em classificar e catalogar livros na biblioteca. Como o acervo fosse pequeno, encontravam os livros sem o complicado sistema de catalogação[10].

 

Com certeza o universo de Borges foi visitado, não apenas homenageado. E com imenso sucesso. Contrariando, inclusive, os conselhos de Borges àqueles que se iniciavam na escrita[11]:

 

-         evite no argumento recordar outro livro (ex.: Ulysses de Joyce e a Odisséia de Homero);

-         evite tudo o que possa ser ilustrado e convertido em cinema.

 

 Bem se viu que a violação da regra proposta teve fruto apreciável. Veja o filme e leia o livro depois!

 


 

 [1] O nome da rosa, 42ª impressão, Nova Fronteira. p. 159 e 160.

[2] P.441.

[3] P.349.

[4] P.350.

[5] V. A Tutela da Liberdade no Processo Penal, Geórgia Bajer Fernandes de Freitas Porfirio, Malheiros, 2005, p. 73 e 106/112.

[6] Idem, p. 452 e 453.

[7] P. 54.

[8] P. 96.

[9] Cf. extrato de entrevista realizada por Jorge Halperín (obtido na internet no endereço etcetera.com.mx/1999/342/eu0342.htm).

[10] Cf James Woodal, biógrafo do escritor, obtido na internet no site www.ciudadselva.com/textos/teoria/sobre.htm.

[11] V. www.ciudadselva.com/textos/teoria/opin/borges1.htm

 

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