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Elogio ao Velho Criminalista?

* Paulo Sérgio Leite Fernandes
Elogio ao Velho Criminalista?

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Antônio Sérgio A. de Moraes Pitombo, filho de Sérgio Marcos de Moraes Pitombo, ameaçou há algum tempo escrever sobre este vetusto cronista. Foi proibido por algumas razões, despontando motivo muito importante ligado à História de São Paulo e do Brasil. Na verdade, embora não consultado o “Google”, dicionário universal da classe média, deve existir legislação proibindo a dotação de nomes de pessoas vivas a edifícios públicos e identificação de ruas em geral. A razão é simples: o homenageado de hoje pode fazer uma bobagem mais tarde e, é claro, não fica bem o encarceramento de quem deu nome a viaduto importante da capital do Estado. Dentro de tal contexto, espera-se que a criatura morra, porque defunto não erra (?). Há exemplos marcantes, ou seja, de o encarcerado virar, depois de morto, nome de logradouro. Vale a vida de Juscelino Kubitschek. Brasília, que o cronista frequenta muito, tem bronzes daquele presidente espalhados em bom pedaço da circunscrição. Isso acontece também em vilarejos e até em favela. No Rio de Janeiro há, perto da linha amarela, patronímicos de criaturas suspeitas, em vida, de pertencerem ao Comando Vermelho, sabendo-se que haviam sido, enquanto não transformadas em presuntos, benfeitoras dos morros em geral. Isso lembra ao cronista o fato de ter composto, enquanto jovem, um sambão chamado “Charles enfrenta Killing”, resposta a uma outra composição, criada por Jorge Ben – hoje Benjor – denominada “Charles Anjo 45”, agora proscrita, pois constituindo comentário sobre malandro preso por acusação de envolvimento no tráfico. Os jurados, provavelmente, haviam sido corrompidos emocionalmente, pois o compositor era professor deles na Faculdade de Direito e não se confiava muito no bom-humor do mestre.

Voltando-se às loas feitas pelo criminalista Antônio Sérgio A. de Moraes Pitombo, já se vê que o moço genial está apostando na manutenção do equilíbrio do decano no último terço da vida, desafio difícil, creia-se. Já vi muito ancião, por aí, tentando voar de parapente e surfar no Havaí, formas agradáveis de autocídio referidas por Vinícius de Moraes no poema “O Poeta Hart Crane suicida-se no mar”. Faz-se o raciocínio porque este antigo cronista ainda tem uma barca a vela (veleiro sempre tem nome de mulher), equilibrando-se perigosamente, ainda hoje, enquanto recebe umas porradas da retranca*.

O cronista, parece, é o decano da advocacia criminal paulista. Guarda ainda lucidez e saúde física suficientes a poder competir mais um pouco e enfrentar também, na sua barca, as tarefas que a vida lhe traz. Antônio Sérgio fecha o quase impecável texto acentuando que a OAB deveria homenagear o herdeiro próximo dos idos. É preciso corrigir o erro. Tempos atrás, num acesso raro de hilaridade, o escriba disse em público haver recolhido, nos cinquenta anos de advocacia, placas de prata e outros troféus suficientes à construção de uma armadura medieval. Foi abundantemente premiado. Outra cerimônia seria excrescente. Além disso, em fecho repetitivo (adoro a comparação), deixo parte de uma estrofe de música posta no mundo por um dos grandes poetas vivos na brasilidade, Chico Buarque de Holanda. Não o cito sozinho. Dividiu a letra com Edu Lobo: “ – Procurando bem, todo mundo tem pereba, só a bailarina é que não tem”. Portanto, cuidado!

* Retranca é termo náutico representando a barra inferior presa ao mastro do veleiro, estabilizadora do velame

* Advogado criminalista em São Paulo há cinquenta e um anos

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