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O Brasil quer apedrejar Sakineh?

Brasil quer apedrejar Sakineh?

Paulo Sérgio Leite Fernandes

Oitenta países integrados na ONU aprovaram, em dezenove de novembro, na vetusta Genebra, resolução que condena o Irã por graves violações de direitos humanos, além de silenciar jornalistas, blogueiros e opositores. O Brasil, sem mais aquela, demonstrou que não quer condenar publicamente aquele país, silenciando inclusive quanto à questão maior correspondente a apedrejamentos impostos em execução de penas, cuidando-se aqui, como exemplo, de Sakineh, aquela que tem até hoje a destino indefinido. Sabe-se universalmente que a vítima de apedrejamento pode ter – e seguidamente tem – o crânio esmagado pelos projéteis, cuja dimensão e peso não ficam a critério dos vingativos cidadãos, mas são previamente estabelecidos pelos carrascos. Os diplomatas brasileiros explicam a abstenção com a esperança de virem a participar de grupo que intermediaria a solução do impasse sobre a questão nuclear no Irã.

O presidente Luiz Inácio parece querer fechar com chave negra os portais que o separam do fim do mandato. Teria afirmado que seria uma “avacalhação” opinar sobre o caso. A expressão chula, extraída das baixas camadas, significa, conforme os hirsutos dicionários, “fazer-se digno de escárnio”, “fazer com desleixo”. Em outros termos, transformar em vaca. O humilde bovino não tem coisa alguma a ver com a infeliz iraniana. Já se vê que se metáfora fosse, a expressão significaria, sim, desprezo enorme à vida de alguém. Imprudência igual à do Presidente se encontra em explicação ou justificativa oferecida pelo embaixador do Irã, Mohammad-Javad Larijani: o povo só pode jogar um certo número de pedras em direção aos olhos da condenada (ou do condenado). Muitos sobrevivem, contrariamente à pena de morte, esta sim impiedosa.

O esclarecimento é tragicamente ridículo, pois a lapidação é, inafastavelmente, uma forma de tortura. Deve haver quem sobreviva, mas há também quem não morra de enforcamento ou mesmo do garrote. Tocante aos apedrejados, sequer vale a pena pensar no aspecto daquele que não morreu, restando possivelmente deformado (ou cego).

Não se sabe se o Ministro brasileiro das Relações Exteriores continuará ou não no cargo. A tendência é mantê-lo, pois tem demonstrado, a poder inclusive de maciça divulgação, eficácia no tratamento de questões internacionais. Tenho em meus guardados uma “pataca” contendo, de um lado, efígie de Ruy Barbosa e, de outro, os agradecimentos do Brasil à participação daquele denominado “Águia de Haia”. Tocante a Luiz Inácio e Celso Amorin, alguém disse do primeiro que estaria voejando na candidatura ao Prêmio Nobel da Paz. Bons presságios o levem. Lado a lado com a premiação, pode receber dos frígidos vikings um bem dosado pedregulho destinado à primeira pedra. Que coisa triste!

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