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Viciados, drogas pesadas e zumbis

Gatopardo

Não se confunda “Zumbi dos Palmares” com os “zumbis”, definidos como criaturas fantasmagóricas voejando nas sombras das favelas do Rio de Janeiro e, analogamente, nas ruelas de todos os conglomerados populares semelhantes porejando no mundo inteiro. Respeitadas as particularidades ligadas ao meio, é tudo parecido. Por exemplo: assustava-se o cronista, enquanto viajava muito e andava por Nova York, com as chamadas favelas de concreto armado constituídas por edifícios abandonados e assim mantidos, com dificuldade, pela polícia local ou organismos outros do município, numa luta constante entre quem pretendia preservar o vazio da construção e quem queria invadi-las. São Paulo mesma tem isso, no centro, havendo fotografias de protestos dos chamados “sem-teto”, dizendo-se enganados pela Prefeitura. O Poder Público teria acenado com alguma possibilidade de mantê-los e os relocar. Não se entenda, entretanto, que se esteja a atribuir àqueles infelizes a prática de tráfico de entorpecentes ou substâncias análogas. Afirme-se apenas que é mais fácil a disseminação do vício e do tráfico em ambientes assim, pois a dificuldade de sobrevivência e a instabilidade de ocupação favorecem a corrupção de costumes. Não se assevere, por outro lado, que o uso e o tráfico estejam congregados na denominada baixa estirpe da população. Qualquer criminalista sabe da sedução representada pelas baladas, boates de luxo e reuniões outras (raves) atiçando a perda de resistência de muitos frequentadores quando o convite chega embrulhado no ressoar dos tambores e arpejos das músicas inebriantes. Há é claro, diferenciando os ambientes, modificação na própria qualidade das drogas vendidas e consumidas na alta sociedade e no “bas-fond”, uma espécie de estado de pureza, quem sabe, garantindo, em tese, o não envenenamento do consumidor (ou consumidora) rescendendo a colônia inglesa ou perfume francês. Dir-se-á que isso já existia na “belle époque”, em Paris ou mesmo na São Paulo de dona Veridiana. Quem se dá ao estudo dos chamados “vícios sociais elegantes” pode pontificar, inclusive, o surgimento da aviação de caça nos primórdios do século XX: alguns pilotos recebiam de suas amadas caixinhas de ouro ou prata destinadas ao armazenamento do pó miraculoso a lhes permitir, sem grande medo, manobras mirabolantes nos céus das zonas de conflagração. Tudo muito romântico, é claro, não se deslembrando, numa comparação até ridícula, que as chorosas por dor de barriga eram medicadas com “elixir paregórico”, ao qual se adicionava, quiçá, na fórmula, um pouco de ópio. Os infantes dormiam bem…

Afirmar-se-ia que é tudo igual. Não é não. Há hoje drogas sintéticas extremamente potentes, sem descurar-se o diabólico crack, envenenando porção não desprezível da juventude e oferecendo dificuldade extrema às tentativas de tratamento dos dependentes.  Dentro do contexto, pais, mães, amigos, médicos e pedagogos em geral perdem o sono enquanto esperam o retorno dos adolescentes postos em risco nos cantos escuros da metrópole.

Lê-se nos jornais, a propósito, o relato da invasão de algumas favelas cariocas pela Polícia, Exército e Marinha, vendo-se fotografias de blindados militares providos de metralhadoras potentes. Há tanques de guerra envolvidos. Tudo funciona à superfície e, obviamente, em túneis dentro dos quais os suspeitos se movimentam como ratazanas, à maneira dos vietnamitas e mesmo de integrantes dos grupos terroristas de Saddam Hussein. Torna-se difícil pegá-los, pois migram, inclusive, para uma outra favela, retornando depois enquanto se misturam aos cidadãos de bem. É guerrilha paciente. Cedo ou mais tarde os mocinhos se cansam, recolhendo os armamentos. Volta tudo à estaca zero. Os ratos perambulam outra vez, espalhando a seiva tétrica. Curiosamente, a exemplo dos filmes especializados, a batalha favorece o traficante, pois as drogas se valorizam na escassez resultante do risco oferecido às transações. Mas é preciso dar satisfações ao povo, valendo o impacto do bem contra o mal.

Qualquer conversa entre burgueses sobre o assunto resultaria na afirmativa, não muito refletida é claro, no sentido de que o traficante merece morrer, existindo pouca gente a lhe defender a possibilidade de sobrevida. Há, tocante ao Rio de Janeiro, uma pesquisa sobre se o povo aprova ou não a atividade de limpeza dos morros. A resposta maciça é o “sim”.

Houve, entre muitos criminólogos, cientistas afirmando que bandido não gosta da luz do dia ou da boa iluminação noturna. Devem ter razão. Mata-se muito mais à noite ou nas madrugadas que à luz do sol. Analogamente, a compra e venda de estupefacientes na escuridão constitui negócios soturnos. As favelas caracterizam locais muito apropriados aos esquemas de armazenamento e cessão, gratuita ou onerosa, de substâncias tais. Pretender-se, após ditas reflexões, erradicar o comércio nefando nos morros cariocas (e mesmo nos paulistas) é atividade dificílima. Seria necessário, em primeiro plano, levar a civilização aos locais referidos, dotando-os de possibilidade de boa iluminação pública, esgotos adequados e encanamento licitamente implantado. Além disso, o policiamento comunitário permanente precisaria ser concretizado, nunca como empreendimento experimental ou aleatório, e sim constituindo o dia-a-dia da relação indíviduo-autoridade. Por fim, as condições gerais de habitalidade necessitariam exibir-se em algum grau de razoabilidade, cuidando-se, nesses atributos, de requisitos ausentes da vida daquela população marginalizada. O melhor, a bem-dizer, seria a draconiana destruição das malocas, cuidando-se, já se vê, de comportamento impossível à autoridade e seus agentes. No meio tempo, é bom acentuar que a criminalidade habitual persiste sempre, independentemente da maior ou menor repressão. As infrações costumeiras só aparecem quando o combate aumenta. Enquanto inexistindo o confronto, aquilo funciona com características muito estáveis e aumenta em eficiência, pois o criminoso não está sento incomodado. Assemelha-se a antibióticos que não curam o tumor, mas o fazem regredir por uns tempos, ou mesmo o espalham pelas adjacências. Cessada a intervenção medicamentosa, volta o micróbio e aumenta a atividade bacteriana…

Já houve, quanto ao crime organizado, uma espécie de “tolerância zero”. A própria cidade de Nova York foi exemplo disso. Aquilo foi bom durante algum tempo mas, depois, ajustaram-se as engrenagens, chegando-se a lugar algum. Acresça-se o fato de o combate agressivo ao crime organizado provocar, sempre, muitas atitudes ilegais dos agentes. Nessas oportunidades, o repressor também comete infração penal, instalando-se então perplexidade entre os analistas. Do que foi escrito, restam duas alternativas:

a) – Derruição das favelas.

b) – Extinção física dos grupos dedicados ao tráfico, valendo isso até que renasçam outros das cinzas deixadas pelos primeiros. Não há, a curto prazo, medida outra a tomar a não ser aquela consistente nas invasões realçadas nos jornais. São paliativas, mas significam reação tronitroante. Morrem alguns criminosos, mata-se um número qualquer de inocentes, fogem os delinquentes pelos buracos preexistentes e, entrementes, preenche-se o noticiário noturno das estações de televisão. Vem o verão, o carioca vai à praia, enterram-se os defuntos e, por fim, vai ter batucada em algum barracão escondido no matagal. Os zumbis prosseguem na tarefa horrível de viciar a juventude. E não se pode aconselhar contra eles qualquer maldição mais extremada, porque merecem, como todos, a proteção do sistema jurídico em vigor. Que pena!

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