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O Renascimento da Bactéria

* Paulo Sérgio Leite Fernandes
O Renascimento da Bactéria

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               A revista científica “Nature” noticiou, há pouco, que pesquisadores haviam  descoberto, dentro de um composto de cristais, uma bactéria com idade de duzentos e cinqüenta e poucos milhões de anos. Aplicaram no bicho umas técnicas especialíssimas. Segundo consta, a bactéria reviveu.
               Isso aconteceu num dos países mais adiantados do mundo, mas não significa que o Brasil esteja muito atrás só pelo fato de não ter conseguido dar vida nova a bactérias assemelhadas. Lembre-se da contribuição ofertada à conquista do espaço por nossas autoridades da FAB. Realmente, estamos preparando um astronauta para fazer companhia a outros na ocupação da estação que paira, ainda agora, na estratosfera. Uma cidade do futuro, com certeza, habitada por humanos superiormentes dotados. Consta, ainda, que o Brasil está cooperando para construção dessa nave com alguns milhões de dólares.
               Eis aí duas contradições: de um lado, um milagre. De outra parte um incrível aperfeiçoamento da conquista do espaço. Num outro extremo, entretanto, aqui no Brasil, milhares de seres humanos sofrem horrores nas podres cadeias mantidas a poder da negligência, da incúria ou da criminosa omissão das autoridades.
               Não se pode nem mesmo pensar na imitação das naus de Cristóvão Colombo, ou de Pedro Alvares Cabral, ambos desafiando os mares e o desconhecido. Naquele tempo, os navios ficaram repletos de degredados mandados a se transformar em suculenta comida dos índios ou alimentos para as feras, tirando-se de letra as picadas de cobra, a malária e outras febres. Mas os criminosos daquela vetusta época tinham uma opção. Os daqui não tem nenhuma, nem mesmo a chance de se mandarem para o espaço sideral.
               A propósito da bactéria com milhões de anos, na medida em que não se tem plano algum de superar o pútrido aprisionamento dos nossos condenados, vai aqui uma idéia realmente inovadora: transformá-los em cobaias das experiências levadas a efeito, e com muito êxito, segundo dizem, para a cura das nossas doenças tropicais. O prêmio para os sobreviventes seria transformar-se a reclusão no pagamento de uma cesta básica. Correr-se-ia, é claro, o risco de o condenado comer a própria cesta. De qualquer forma, é uma sugestão para mostrar ao mundo que o Brasil também tem bactérias a serem aproveitadas na experimentação científica. Seriam bichos mais baratos encontrados em profusão e absolutamente desprezados pela comunidade. Não nos esqueçamos de que haveria uma vantagem ainda maior: a quase totalidade morreria , deixando de preocupar os responsáveis, no país, pelo sistema prisional. E de repente, daqui a alguns milhões de anos, se redescobre um ou outro defunto dentro de um conjunto de cristais. Poucos saberão, se e quando os presos assim localizados renascerem, que se tratava de uma bactéria conhecida como um micróbio brasileiro. Nesse tempo, com certeza, a bandeira dos país estará tremulando no espaço, em conjunto com outras, num festival das grandes nações.

* Advogado criminalista em São Paulo e presidente, no Conselho Federal da OAB, da Comissão Nacional de Defesa das Prerrogativas do Advogado.

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