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Com Votos de Feliz Natal

* Paulo Sérgio Leite Fernandes
Com Votos de Feliz Natal
(Ou “Não só os padres andam descalços”)

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               Temos enfrentado, os quatrocentos e cinqüenta mil advogados brasileiros, tempos ruins. A maior parte de nós, entretanto, tem menos de 20 anos de profissão. A advocacia não é privilégio dos longevos. Estatisticamente, os advogados vivem menos do que os médicos, engenheiros e economistas. Também de acordo com as estatísticas, os sacerdotes, embora dedicando a vida a Deus e tendo com ele, portanto, mais proximidade, são os que mais demoram a testar o supremo desafio. Vivem mais. Talvez menor dose de pecados, parâmetros mais adequados de controlar as emoções, a garantia de refeições regulares e confiança no resguardo da velhice, pois uma das regras da Igreja é nunca permitir que o padre ande descalço, embora eu já tenha visto, na época em que andava pela Itália (hoje missão impossível) um franciscano palmilhando, os pés nus, o cascalho posto ao redor de velha igreja situada num vilarejo italiano. O padre queria, com certeza, purgar os pecados do mundo. Há santos que fazem assim.
               Voltando ao presente, quero repetir que a hora é ruim sim. De um lado, somos um exército muito grande gerado por autoridades irresponsáveis, mas não temos culpa. Exercendo profissão maravilhosa e gostamos dela, ainda que nos falte o pão. De outra parte, há, soprada pela vetusta Europa, uma nuvem cinzenta, feia, repulsiva, retrato de época que parecia ultrapassada, dando tal nuvem ao Estado, com seus eflúvios venenosos, o poder de desequilibrar o direito do homem em benefício do direito da sociedade, circunstância que apavora quem já viveu muito e pôde testar vários períodos da história da humanidade e do Brasil. O período é ruim, pois tal sopro acinzentado paira, inclusive, sobre a fronte dos juízes e os plenários dos nossos tribunais, levando muitos à convicção de que o poder do Estado deve vencer a capacidade de resistência do cidadão. Coisa feia, a contagiar magistrados mais impulsivos, não feridos ainda, na própria carne, pelos ardores dos tempos passados. Quanto a nós, velhos advogados, feiticeiros de antanho quem sabe, já pegamos, quase quarenta anos atrás, nosso país sob o império da violência estatal, espargindo-se pelos cantos das celas os venenos dos torturadores, proibindo-se o habeas corpus, muita gente  enterrada em segredo nas valas comuns dos cemitérios ou no meio da mataria do Araguaia. Para nós sobreviventes, o tempo ruim de hoje é o café da manhã, bastando que os jovens nos ouçam um pouquinho e se fortaleçam na reação. Somos quatrocentos e cinqüenta mil, repita-se, mas é o bastante, para o nosso sucesso, que nos demos as mãos, porque meio milhão de advogados unidos constitui uma extraordinária milícia formada por intelectuais, poetas, menestréis, jograis, contadores de histórias, todos eles providos de qualidades que só possuem aqueles tresloucados crentes na potencialidade do cidadão no exercício da guerrilha contra o envergonhamento dos direitos do homem. Portanto, irmãos provectos, outros da meia-idade e milhares em amadurecimento, acreditemos no futuro. Na verdade, somos co-autores do amanhecer da nossa pátria. Só não percebemos isso ainda. Bom natal.  

* Advogado criminalista em São Paulo há quarenta e dois anos. Esta crônica é personalíssima. Retiro meus títulos.

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