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“O Estado de São Paulo” começa a acordar?

Paulo Sérgio Leite Fernandes

Recebo o jornal “O Estado de São Paulo” há anos, todas as manhãs. Moro em apartamento. Não tenho cachorro mas, se o tivesse, seria pequeno e não teria forças para abocanhar as edições de domingo, suficientemente pesadas para desanimar mandíbulas menores. Leio tudo. Jornais são formadores de opinião. Quem lê a “Folha de São Paulo” fica impregnado por argumentos às vezes mais agressivos, pois a linha de um e de outro nem sempre é análoga. Conheço a “Folha”, aliás, desde o tempo do “Caldeira”, que vi pretendendo ser prefeito de Santos durante o Brasil menos democrático – e foi –, tudo misturado numa velha história de amor mal compreendido.

Mudando de assunto, mas ainda perseguindo as mesmas premissas: parece que o “Estadão” está começando a acordar para os problemas do ensino universitário brasileiro, com realce nas faculdades de Direito. Leio hoje, numa seção não assinada e portanto assumida pela editoria do próprio órgão, notícia sobre a tendência, no Senado, de permitir, mediante projeto de lei a evoluir na forma tradicional, que profissionais não portadores de mestrado e doutoramento, ou seja, simples bacharéis, possam ministrar aulas nos diversos cursos universitários que a nação tem, ligando-se a tendência a intervenção, inclusive, do senador Álvaro Dias, dizendo-se pressionado pelas mantenedoras de cursos particulares, na medida em que não há mestres e doutores em número suficiente para o provimento de cargos em circunstâncias privilegiadas. Afirma-se ainda no editorial que o meio empresarial se interessa atualmente pela exploração de cursos superiores, abroquelando-se em instituições de pequeno ou de médio porte. Há muito dinheiro estrangeiro no jogo.

Veio-me a reflexão enquanto ouvia rádio no carro, burlando o infernal trânsito de São Paulo. Era música de Vinícius de Moraes sobre Itapuã. A canção começava depois de uma introdução do poeta Calazans Neto, se a memória não falha. A certa altura ele dizia: “– Bom mesmo é não fazer nada, passando o dia inteiro jogando conversa fora”. Era mais ou menos assim. Havia no texto referência a “uma cachaça de rolha” e coisa que tal. Os grandes órgãos de imprensa brasileiros, enchouriçados sobre assuntos múltiplos envolvendo a política nacional, fazem como sugeria o companheiro do maior vate brasileiro: jogam conversa fora e acordam devagarzinho. Vinícius, o de Moraes, podia dar-se o luxo de olhar, absorto, o horizonte de Itapuã, produzindo depois músicas maravilhosas e sempre encantadoras. O “Estadão” não pode. A “Folha”, igualmente, não tem o direito de fazer parelha com a sonambúlica expectativa. A pressão exercida sobre o senador Álvaro Dias, que não se impressiona tanto assim, vem especificamente de mantenedoras de faculdades de Direito, entranhadas nas mil e trezentas que o Ministro da Educação atual acabou de arredondar, para não se ter número ímpar. Dizem que o número par dá sorte.

Vamos lá, gente! O “Estadão”, a “Folha de São Paulo” e a Ordem dos Advogados, juntos, constituiriam uma espécie de triângulo sagrado. Investiguem. Pesquisem. Não é necessário, nem é possível, interceptar as intimidades de alguém. Basta inquirição metódica sobre as entranhas daquela pasta da Educação.

Vi hoje de manhã, também no clássico gerador de convicção entre os paulistas, uma fotografia de Fernando Haddad, com a presidente e um terceiro – não lembro quem –, encimando afirmativa correspondente a possível candidatura de Haddad à prefeitura de São Paulo, apadrinhado por Lula. Este site é pigmeu. Não pode, obviamente, ser contestador válido, sendo importante dizer que não tenho vocação ideológica. Para mim, os partidos políticos significam coisa alguma. O ministro da Educação deve explicações à comunidade. Quedando-se mudo, perderá nosso voto, com certeza.

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