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Raimundo Pascoal Barbosa

* Paulo Sérgio Leite Fernandes
Raimundo Pascoal Barbosa

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            Raimundo Pascoal Barbosa, ex-combatente da FEB  (Força Expedicionária Brasileira), chegou a São Paulo vindo do norte. Era um tempo em que os expedicionários tinham algumas poucas prerrogativas, destacando-se a possibilidade de matrícula em universidades públicas. A Faculdade de Direito do Largo São Francisco, severa como poucas, acolheu com afagos, entretanto, o nordestino que lutara, na Itália, contra fascistas e nazistas. O moço colou grau em 11.01.1952. Formou-se com Gil Costa Carvalho, Geraldo Tolosa, Ismar Marcílio de Freitas, José Leonardo Ferraz Mônaco, Norma Campos Guimarães e José Eduardo Loureiro, entre outros tantos ainda vivos. O paraninfo foi Miguel Reale.
         Casado com Cecília, tradicional ituana, perdeu-a  numa aziaga manhã, assassinada à porta de casa. Partiriam para a Europa no dia seguinte. O ladrão a seguira enquanto saindo do Banco. Raimundo, criminalista já famoso, nem por isso deixou de defender quem dele precisasse. Absorveu a tragédia, mas não se casou novamente.
         Aquele nordestino tinha forte sotaque e um jeito perigoso de dizer verdades. Falava duro, vergastando seus opositores. Tratava juízes e desembargadores como iguais. Era, sem dúvida alguma, um dos advogados com maior credibilidade nos tribunais paulistas. Comunista no tempo de estudante, consta que deu trabalho aos companheiros de Faculdade de Direito,obrigados a uma ou outra “vaquinha” para livrá-lo da polícia política.�
         Conheci Raimundo no Conselho da   OAB. Fizeram-no presidente, a título de homenagem, quando Cid Vieira de Souza se licenciou para poder concorrer outra vez. Uma conduta justa, pois Raimundo merecera seguidamente  a liderança. Atravessamos juntos a ditadura. Fomos buscá-lo, certo dia, nos corredores do DOI CODI.  À  noite, na sessão  do Conselho, fiquei indignado. A polícia lhe cobrira  a cabeça com o capucho, enquanto detido. Exigi providências. Ele riu. Aquilo era seu café matinal. Estava acostumado, na juventude, a coisa muito pior…
         O velório de Raimundo, no dia 15 de agosto, estava repleto de gente importante. Mário Sérgio Duarte Garcia,  José de Castro Bigi, Tales Castelo Branco e eu, mais uns poucos, nos consideramos como família. Senti, nos abraços dos que chegavam, como se nos dessem os pêsames, ao lado do João e das duas filhas.
         Três ou quatro dias após, houve audiência complicada. No meio dos debates, disse à Juíza, num rompante de orgulho desnecessário, que eu era o decano nas lutas da OAB. Mário Sérgio interferiu, do outro lado da mesa. Pediu licença à magistrada e contrariou: “- O decano sou eu, Paulo Sérgio!” -  Respondi  que tudo bem, então meu título era de vice-decano…
         Havia naquilo um pedaço grande de tristeza. Comecei muito cedo os combates na Ordem dos Advogados. Por tal razão, já fui a enterros demais. Restam poucos de uma época  em que a advocacia era uma profissão de fé, com símbolos assemelhados a Raimundo Pascoal Barbosa. Alguém, na formatura do jovem nordestino, nos idos de 1952, deixou versos escritos nos anais da Faculdade de Direito. Peço licença ao poeta e modifico  a última estrofe “- Súbito volta à realidade fria: Dentre as sóbrias, graníticas arcadas, A sombra do Raimundo Aparecia…”
         Decididamente, este é o penúltimo epitáfio. Cansei de ver meus irmãos  morrerem.  

 * Advogado criminalista em São Paulo há quarenta e dois anos. Esta crônica é personalíssima. Retiro meus títulos.

Um Comentário sobre “Raimundo Pascoal Barbosa”

  1. Roberto Gomes Santiago disse:

    Como advogado militante, tive o imensuável prazer de desfrutar do convívio profissional de Raimundo Paschoal Barbosa. O que mais ele deixou marcado em minha memória foi a humildade, que, a meu ver, é a mais autêntica característica dos grandes. Falava ele, com a eloquência de poucos, e, ao terminar, dizia com incrível naturalidade: – Desculpem-me por minhas palrações (que nada tinham de palrações, pois eram, sempre, observações sábias e oportunas). Este ilustre advogado, realmente, deixou saudades nos corações daqueles que tiveram o privilégio de conhecê-lo.

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