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Preso morre queimado em Delegacia de Polícia

Paulo Sérgio Leite Fernandes

Noticia-se na internet que um homem foi queimado vivo, em Tapiramutá, Bahia, porque teria assassinado um octogenário. A delegacia estava com cadeado na porta, mas o populacho arrebentou a fechadura com machados e picaretas, ateando fogo no suspeito. Este morreu à maneira dos “bonzos” suicidas. Não houve quem pudesse salvá-lo.

O fato é raríssimo, mas demonstra o que uma comunidade enlouquecida é capaz de fazer. Algo assemelhado aconteceu em Ibiúna, quase quinze anos atrás, quando um rapazola bêbado foi encarcerado num posto policial. Alguém algemou o moço às grades de uma cela, pelo lado de dentro, afastando-se do prédio. Havia uma motocicleta ali, despejando gasolina pelo tanque furado. Um fósforo foi aceso e o preso, sem poder mexer-se, teve o corpo incendiado. Transeuntes ouviram os gritos desesperados, conseguindo apagar o fogaréu. Das pernas do jovem pouquíssima coisa restou. Viraram churrasco. Moveu ação de indenização contra o Estado de São Paulo há anos. A Procuradoria resistiu até o último grau, chegando ao Supremo Tribunal Federal. No fim de tudo, o pedido foi julgado procedente e o ferido aguarda disponibilidade dos dinheiros em precatórios que hão de ser satisfeitos, pois tudo deve ter fim. O moço tem uma filha. Quando aquilo começou, era menina de colo. Atualmente, tem lá seus quinze anos e saúde precária. Tocante aos advogados, declararam expressamente ao juiz que exerciam a advocacia gratuitamente, renunciando a qualquer honorária, mas aquilo está enterrado nos escaninhos judiciários, como o que acontece, no Brasil, aos pobres, desvalidos e àqueles dependentes de impulso processual menos relevante.

Expõe-se a foto do rapaz, devidamente tarjada para que não se lhe veja a desgraça por inteiro. Alguém, quem sabe, pode se condoer no tribunal, no cartório ou na sala de audiências do magistrado responsável pela tramitação. De repente, o beneficiário se vai, restando a mocinha. Protejam-na os deuses.

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