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A OAB e a Comissão da Verdade

Paulo Sérgio Leite Fernandes

A Secção de São Paulo da Ordem dos Advogados do Brasil realizou ontem, dois de julho de2012, aprimeira reunião preparatória da implantação,em São Paulo, de uma “Comissão da Verdade”, a exemplo do Conselho Federal da entidade. Embora não subordinado àquela a funcionar em Brasília, o grupo paulista pretende colher, nos próximos dois anos, informações possíveis sobre o período em que o Brasil foi vítima da ditadura iniciada em 1° de abril de 1964. Não se pretende, conforme curta exposição feita pelo presidente em exercício, Marcos da Costa, a abrangência de apuração dos maus tratos praticados contra o povo, em geral, mas sim o apontamento de sevícias e prisões consumadas contra advogados e advogadas, notadamente aqueles a aquelas vítimas de perseguições políticas e policiais desenvolvidas pelo regime de força. Em princípio, não se buscaria uma retorção, mas o simples restabelecimento da verdade histórica, difícil sim, pois aqueles tempos se perderam nas brumas e gavetas dos esbirros, com relevo para o DOI-CODI (ou CODI-DOI, se preferirem). Houve, certamente, concentração de documentos atinentes ao período, mas a memória deste antigo cronista da advocacia criminal paulista pontifica que Romeu Tuma, pouco antes de José Carlos dias ter assumido a Secretaria de Justiça, teria ensacado os documentos armazenados no DOPS, levando-os, segundo consta, à Polícia Federal. Aquilo há de estar em algum lugar, ou, quiçá, teria sumido nas alfombras da “Terra do Nunca”. Alguma coisa sobrou, com certeza, porque o ser humano é compulsivo em preservar o que já foi. Vale lembrar, apenas para suavizar a crônica, a recente descoberta, em Cuba, de um baú velho numa casa habitada por Hemingway quando amigo de Fidel Castro. Pode ser fabulação ou tentativa de revalorização da memória do autor de “Por quem os sinos dobram”, mas parece que havia, naquele restolho, comentários não muito agradáveis ao caudilho cubano. Faz de conta que é verdade. Mas, se invenção for, não faz grande diferença. É assim que funciona.

Aguarda-se resultado positivo dos trabalhos da “Comissão da Verdade” paulista. Se levada a extremos a tarefa, muito defunto há de ser revirado nas tumbas. Sempre achei esquisita a rememoração do trajeto daqueles que morreram (as chamadas biografias). Sobram perebas.

Newton Cruz, ainda vivo e com uns oitenta e poucos anos no lombo, declarou dias atrás que “observou a legislação da época”. Aconteceu o mesmo com judeus em Berna, Dachau e outros campos de concentração.

Morto não se defende, mas até as hienas fazem filhos, embora aqueles animais sejam os únicos que riem, ressalvada a raça dita superior. Merecem amparo.  Se e quando atacada a memória dos bichos, e até dos bichos, dê-se-lhes proteção, instalando-se o contraditório. Na madrugada de hoje, no entremeio de uma sonambúlica vigília, vi na televisão, na pouca notícia remanescente dos anúncios de desodorante: um “pitbull” raivoso invadiu uma casa e mordia quem se aventurasse a chegar perto. Veio um funcionário do serviço de recolhimento de animais abandonados e assobiou para o cão, agachando-se. Este, imediatamente, fez ninho no colo do tratador. Fosse outra a pessoa e o cachorro seria morto. Já se vê que até a maldade tem agasalho…

Vieram-me tais reflexões, repito, logo após a santa reunião da Ordem. Pensando naquilo tudo, preciso avaliar muito bem o lancetamento daqueles asseclas da ditadura. Maior parte deles, com certeza, já se foi para o além. Cada beliscão, “pau-de-arara”, “telefone” ou agressão afim, só para se falar na rotina, teve preço caro na alma de quem fez. Lembro de alguém posto a confessar enquanto companheiro de célula, vislumbrado por um espelho de uma só face, estava nu e pendurado como um frango depenado, enquanto sofria choques elétricos. O espectador se desmanchou e entregou tudo. A outra criatura, logo depois, fechadas as cortinas, foi libertada, secou-se com toalha suja, vestiu-se e foi embora pra casa. Havia feito acordo com os captores.

Rebuscar a sujeira da ditadura é tarefa extenuante. Por isso, poucos são os chamados e só alguns os escolhidos. Ver-se-á.

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