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Novas Faculdades de Direito II

* Paulo Sérgio Leite Fernandes
Novas Faculdades de Direito II
(Ou “O menino do tambor”)

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               O subtítulo lembra um livro de escritor famoso, transformado em filme. Era a história de um menino teimoso que não queria crescer. Seus companheiros de folguedos amadureciam, criavam barba, envelheciam e morriam. Aquele garoto pulou da escada e por artes da fatalidade continuou criança, fantasiando portanto, pois uma das características do infante é, todos sabem, a imaginação fértil. Quando o menino queria alguma coisa, pegava um tambor de lata e repicava, dias e dias seguidos, usando dois tocos de cabo de vassoura. Vizinhos, parentes, autoridades, o prefeito, o Cura da aldeia, o sargento comandante do destacamento, o governador, o presidente do tribunal, os deputados, senadores, o presidente da República escutavam, vinte e quatro horas por dias, o retumbar do tambor de lata: rataplã, rataplã, rataplã, plã, plã… alguém amarre as mãos desse tresloucado garoto, pois não se agüenta mais o maldito tambor!
               Desde mil novecentos e não sei quantos, a partir de Jarbas Passarinho no Ministério da Educação, eu apontava, como o menino do tambor, a irresponsabilidade dos Ministros da Educação  quanto aos cursos jurídicos. Cheguei a escrever com Waldir Troncoso Peres um esboço sobre o assunto. De lá para cá, em vez de melhorar, o panorama atingiu prospecção satânica. Entretanto, parece que a grande imprensa começa a despertar de um indesculpável sono e lança os olhos sobre o assunto. Pode ser que os articulistas, ou diretores dos chamados “formadores de opinião pública”, tenham ouvido o insuportável barulho produzido pelo tambor de lata. Realmente, li na “Folha” de hoje, 12 de dezembro, dois artigos, um do Presidente da Comissão de Ensino Jurídico da Ordem, contido até dentro da elegância com que construído, outro agressivo, direto, violento, prático, escrito por Elio Gaspari, mas ambos dizendo ao Ministro e seguidores o que é preciso dizer, chamando-lhes a atenção para as tropelias do respectivo Ministério. Os dois articulistas, certamente, não classificam como bobagem (O Ministro o fez) a aprovação de um analfabeto em vestibular de Faculdade de Direito no Rio de Janeiro. Traçam séria censura à Pasta da Educação. Quanto a mim, se soubesse onde é o gabinete do Ministro, sentar-me-ia na guia da calçada, sob a ampla janela, e repicaria meu tambor de lata de segunda-feira a domingo, sem intervalo sequer para o Natal e a passagem do ano, a ver se Paulo Renato se lembra de dar à classe jurídica brasileira, com ou sem Papai Noel, um presente sagrado: o início da moralização do ensino e do estudo do Direito no país. Afinal, nem presente é. É obrigação. Salvar-se-á, quem sabe, do negrume em que chafurda o vai-e-vem das autorizações à criação e manutenção de tais cursos espúrios. Ainda é tempo de o Ministro ouvir o tamborzinho. Ou então ensurdeceu. Vai aqui, entretanto, nestas vinte e quatro horas, meu saudável “rataplã”. Rataplã,   Ministro! Rataplã, rataplã, plã, plã. Vou tocar este tambor enquanto você Ministro for e mesmo depois de você ir embora para casa, porque fez um mal terrível aos advogados brasileiros e merece ensurdecer sim, mas com o som da nossa teimosia e da nossa insubordinação. A propósito, “rataplã” é onomatopéia que o aprovado no seu vestibular de fancaria não conhece nem por ouvir dizer mas, onomatopaico ou não, o tamborzinho de lata faz muito barulho. E você vai acabar por ouvi-lo, queira ou não queira.

 * Advogado criminalista em São Paulo há quarenta e dois anos. Esta crônica é personalíssima. Retiro meus títulos.

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