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Oscar Niemeyer

Paulo Sérgio Leite Fernandes

Rogério Seguins Martins Júnior

Maurício Vasques de Campos Araujo

Lucas Andreucci da Veiga

Ricardo Brentani

        Oscar Niemeyer viveu 104 anos. Noticiários registram que teria pedido pastel e café, um dia antes. Cada moribundo, se e quando lúcido, tem suas preferências. Um dos cronistas, por exemplo, parou de fumar há vinte anos. Tragava cinco maços a cada 24 horas. Ainda gosta. Valeria a pena uma última baforada.

Tocante a Niemeyer, não se conhece hábito relevante mas, se parou de fumar aos cento e três anos, o tabaco lhe faria falta no encontro com Deus, se ateu não fosse, embora sendo um construtor de igrejas.

Há, referindo-se a um dos maiores arquitetos da história universal, centenas de comentários. Preferiríamos vê-lo enquanto traçando, com Lúcio Costa, as linhas mestras de Brasília, fazendo companhia, às vezes, a Juscelino Kubistchek, remetido a outras plagas faz anos num acidente automobilístico muito discutido quanto às origens. Nada a dizer a respeito, pois Castelo Branco também se foi no despencamento do avião presidencial. O futuro é imprevisível. Já se viu recém-nascido morrer em naufrágio, salvando-se viajante em estado terminal. Faz parte.

Pensemos na vida sem grande profundidade. Há surpresas, é claro, com o impacto produzido pela constatação da morte de alguns. É, dentre todos, o fenômeno mais natural, mas os corpos são, eventualmente, enrolados em mortalhas, postos em aeronaves ou veículos terrestres oficiais, transportando-se os restos de um a outro lado. Há defuntos sumidos. Pense-se, falando-se só no Brasil, em Rubens Paiva, transformado em pó sob o bastão do Ministro da Justiça Alfredo Buzaid. O morador de rua fica por aí e, ao extinguir-se, segue a uma vala comum. Morre anonimamente. Morreu. É só.

Preferimos entender Oscar Niemeyer como sobrevivente daquilo que já foi e continua sendo, pois viu um pedaço do país ainda em estado bruto, acampou em barracões – e barracos eram, embora sofisticados –, marcou o solo com a edificação de seus projetos e, no fim de tudo, viveu mais que todos, conservando no fundo da memória os segredos e mistérios de uns tantos. Desencarnou-se. Temos o mau vezo de considerar o corpo como uma espécie de envoltório desligado da criatura, tanto assim que dizemos “meu corpo” e não “eu corpo”. Há nisso tudo aquilo que a psiquiatria chama de paranoia (ver de lado), mas não deixa de ser uma hipótese saudável. Dentro do contexto, Oscar Niemeyer, para nós, é presença etérea e desligada do embrulho material, caixa ou invólucro, se assim alguém preferir. Foi testemunha da Semana de 22, com Oswald de Andrade, Tarsila do Amaral, Mário de Andrade e o mais. Observou a Guerra Civil Espanhola, contada por Hemingway e retratada por Picasso, a Revolução de 1932, o Estado Novo com Getúlio Vargas, as duas Grandes Guerras e alguns outros acidentes universais relevantes. Juscelino foi execrado pela ditadura, mas Niemeyer ficou intocado, embora comunista convicto e, depois, amigo de Fidel Castro. No meio daquilo tudo, pôde até ouvir, insistentemente quem sabe, os ensaios da sinfonia de Brasília, gerada pela genialidade de Tom Jobim e Vinícius de Moraes. Aliás, faz agora sociedade com os dois, não se devendo dele dizer, quem sabe, a título de epitáfio, o que escreveu o maior poeta brasileiro dos últimos tempos: “Quem pagará o enterro e as flores se eu me morrer de amores? Quem, oculta em véus escuros, se crucificará nos muros? Quantas, debruçadas sobre o báratro, sentirão as dores do parto? Qual a que, branca de receio, tocará o botão do seio? Quem, louca, se jogará de bruços a soluçar tantos soluços que há de despertar receios? Qual a que, o rosto sulcado de vento, lançará um punhado de sal na minha cova de cimento? Qual a que não estará presente por motivo circunstancial? Quem se abraçará comigo que terá de ser arrancada?”

Há projetos de Oscar Niemeyer lembrando suaves curvas femininas. Ele nasceu no Rio de Janeiro. Cidades de praia têm, nas montanhas banhadas pelo mar, figuras desse tipo plantadas sedutoramente na linha do horizonte. Teriam sido, no fim das contas, boas fontes de inspiração. Que descanse em paz.

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