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Las Locas de La Plaza de Mayo

Paulo Sérgio Leite Fernandes

(composta e cantada em 1985)

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Só vestem com negro.

As faces marcadas por rugas profundas,

Os olhos brilhando de ódio e de dor,

Contemplam caladas, sofridas, perdidas,

O templo rosado plantado na praça.

“Las Locas de Mayo”, carpindo,

Dardejam o sopro dos filhos sumidos,

Elos partidos nas sobras do nada,

É plena sandice buscar, implorar,

A volta dos idos perpétuos.

São tumbas, só tumbas, sem nomes, sem flores

Cobrindo mistérios, segredos sem fim.

 

“Las Locas” carregam sinais da desgraça.

A morte dos outros

Deixou-lhes no rosto espinho profundo.

São cortes lascando o liso da pele,

São veios cortantes nos lábios crispados.

 

As loucas misturam seu negro

No vôo das pombas da Casa Rosada.

São mães, mulheres curtidas pedindo um sinal

Da terra que cobre o sigilo dos corpos queridos.

 

Respostas não têm.

Auxílio não chega.

Consolo não vem.

As portas não abrem.

Há nuvens cinzentas podandos os apelos da vida

Vivida no tempo que foi.

 

“Las Locas de Mayo”, da Casa Rosada,

São loucas do mundo velando coragem.

Exemplos lá longe, seguidas de perto,

São gente vestindo o choro das outros.

Estátuas da dor, seu pranto molhou

A terra escondida na Praça de Mayo.

O choro não fica por lá.

Irriga florestas. Traz força aos mais moços,

Traz raiva contida, traz fome de paz.

Os trapos são negros, mortalhas, toalhas,

São panos levados na crista das ondas,

Na água dos rios, na mente dos velhos,

No frio da noite,

Bandeiras de angústia fincadas no chão do terror.

 

“Las Locas de Mayo”, da Casa Rosada,

São loucas do mundo velando coragem.

Só vestem com negro,

Os olhos brilhando de ódio e de dor.

 

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