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As férias de Mr. Jones

As férias de Mr. Jones

Mr. Jonesolhou para o marido. Há três dias, já, o inglês não se sentava, no fim da tarde, para o tradicional cálice de Cherry e comentários sobre suas aventuras em Jurubeba. O homem andava nervoso, pensou Mrs. Jones. Nem se atrevia ao chá das cinco, aos sábados, no clube dos ingleses. Era tempo de sair em férias, sim. Por tal razão, sem que o parceiro soubesse, a mulher resolvera fazer-lhe uma surpresa. Comprara-lhe passagem e reservara hotel, num pacote para pagamento em dez vezes, em paradisíaco “SPA” cujo nome e localização queria manter em segredo. O marido iria sozinho, pois alguém precisava cuidar dos netos (os ingleses também têm netos). E Mrs. Jones tinha plena confiança no esposo. Afinal, mesmo não a tendo, qualquer comportamento menos digno seria imediatamente descoberto em Jurubeba, porque não é comum ver-se a desoras, escondido nas sombras de Jurubeba, um distinto senhor de fraque, cartola, bengala e monóculo.

Mrs. Jones, previdente, havia até escolhido as leituras do saxão. Shakespeare não faltaria. Havia entre os textos alguns versos sensuais. Por exemplo: “- Ah! Seu amor não passa de apetite – é simples paladar, não sentimento- que se farta, repugna e revolta, mas o meu, como o mar, é insaciável, e como ele, também tudo digere. Não compares o amor que por mim possa sentir uma mulher, com o sentimento que a Olivia ora eu dedico” (Noite dos Reis). Tratava-se de verso não muito edificante mas Jones saberia lidar com ele…

Forçar o saxão a partir foi questão de alguma insistência. Ele não estava acostumado a viajar só. Mas no fim concordou. Foi levado ao aeroporto sem conhecer seu destino. Desembarcou oito horas depois em pequena pista de vôo fazendo esquina com embarcadouro onde o esperava belíssimo navio. Havia moças vestindo sumários sarongues e entoando canções dolentes. Jones estava devidamente paramentado: bermudas risca de giz até os joelhos, meias pretas e sapatos de bico fino. Sobrava um pedaço das pernas fininhas (saxões, segundo dizem, têm pernas finas). A cartola indefectível o protegeria do sol. Levava um skate sob um dos braços. Na outra mão, a mala negra que Mrs. Jones havia preparado para a ocasião.

O navio apitou e se pôs ao mar. Passou-se pouco tempo. Jones deixou o barco numa praia impecável repleta de palmeiras. Havia, entretanto, alguma coisa estranha, porque as dunas terminavam em edifícios suntuosos parecendo estabelecimentos comerciais. Muitos cartazes nas portas principais: “Banco das Ilhas Caimãs”, dizia um. “Eis o seu Banco do Brasil nas Ilhas”, afirmava outro. “Deposite seu dólar em segurança”, convidava um terceiro. Jones, amedrontado, apertou a mala preta sob o sovaco. É que uma verdadeira multidão começava a empurrá-lo para um edifício e para o outro, disputando-o violentamente. O inglês terminou entrando num dos grandes prédios. Alguém lhe arrebatou a mala preta e lhe exigiu a senha para abri-la. Era o nome de Mrs. Jones. Finalmente, as entranhas foram mostradas: Ohhhhhh!, olhares espantados. Havia um par de ceroulas, dois pares de meias negras, uma camisa de colarinho duro, uma foto emoldurada de Mrs. Jones e um exemplar de um livro, de autor brasileiro desconhecido, vertido recentemente para o inglês (King Crab). E mais nada. Jones foi atirado na calçada. Traseiro cheio de areia, sentou-se na guia, resmungando inutilmente contra os banqueiros das Ilhas, Shakespeare e a ingenuidade da mulher. Esta devia saber que brasileiro que se preza, mesmo disfarçado de inglês, não carrega mala preta para as “Caimãs” sem dólar dentro. A regra, ali, era uma só, como na canção do Cabaré: Money, Money, Money…

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