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Mr. Jones muda de ramo

Mr. Jones muda de ramo
(Faculdade de Direito III ou A Síndrome da Vaca Louca)

Jones, angustiado, via seus alunos debandarem do curso de Direito montado no quintal de sua casa. Havia concorrência múltipla na vizinhança, Uma das universidades particulares que disputava preferência usava chamariz para atrair vestibulandos: sorteio de um automóvel conversível mais duas passagens de ida e volta para Angola, com opção de dez dias na selva e retorno por Lisboa. Na última noite, um recital na melhor casa de fados da capital portuguesa.Outra universidade dispensava o vestibular. A seleção era feita pela altura e dotes físicos dos estudantes. Até pé-chato entrava. Curiosamente, embora oferecendo tantas vantagens, os cursos eram caríssimos. Jones abaixara suas mensalidades. Cobrava menos de mil reais por mês, mas tinha pouca procura. Assim, a Faculdade de Direito “Hamlet” estava trabalhando no vermelho.

Jones, debruçado no janelão do quarto de dormir, olhava o majestoso prédio construído no centro do “campus”para abrigar seu curso de ciências jurídicas. Um orgulho, certamente, mas havia, além da insuficiência de alunos, um outro problema sério: o Conselho Nacional de Educação não reconhecera, cinco anos depois, seu curso de direito. Realmente, alguns fiscais do MEC haviam estado em Jurubeba, visitando as instalações da Faculdade. Jones, com imenso cuidado, recebera os inspetores regiamente, dando-lhes acomodações num dos melhores hotéis da cidade ( um que tinha várias quadras de tênis- os inspetores traziam raquetes nas malas, segundo espiões). Não adiantara,pois a O A B, por meio de seus meios de comunicação, malhava sistematicamente as faculdades de Jurubeba. O Conselho Nacional de Educação, antes extremamente liberal, tornava-se reticente, com receio do escândalo difícil de refrear. Além disso, as universidades brigavam, acusando-se mutuamente de manterem naquele Conselho membros indicados por elas próprias, fato originador de disputas internas ridículas já farejadas pela imprensa. Era hora, pensou o inglês, de mudar de ramo. Mas qual a nova atividade? Uma outra indústria? O saxão não chegava a solução alguma. Foi então que Mrs.Jones, sempre prática, lhe sugeriu forma genial de aproveitar o “campus”. Aquilo daria um pasto perfeito. Grama de primeira qualidade, bom prédio para a administração e estábulos, sol e sombra muito bem distribuídos… centenas de bois e muitas vacas. Mrs. Jones tinha assistido a um debate na televisão. Um deputado ligado a ruralistas afirmara que o Brasil mantinha o maior rebanho “em pé” do mundo. Pois “que vengan los toros”, bradou Jones. Ou então “come the oxen” . Entre um rebanho de milhares de universitários frustrados e outro de gado vacum bem nutrido, melhor a segunda opção. Se houvesse problema, seria com o Ministério da Agricultura. E ali Jurubeba tinha moral. Ganhava-se do Canadá a guerra da “Vaca Louca”. Fernando I e Único, rei de Jurubeba, fazia discursos de vencedor. O Canadá se encolhia. Câmara e Senado se enchiam de discursos enaltecendo o gado bovino jurubebense. A solução para Jones , seguramente, seria criar vacas. Aliás, nenhum diretor da universidades pródigas em “campi” tinha pensado naquilo. Melhor para Mr. Jones; chegava primeiro. Seria o princípio de muitas faculdades de veterinária, certamente, mas primeiro os bois e as vacas. Os Conselhos de veterinária e agronomia se assustariam. Entretanto, o MEC daria um jeito. Paulo Renato era candidato à presidência da República. Sob sua regência, abastardara-se mais ainda o ensino do Direito no país, mas quem se importava? Democratizara-se a universidade. Democratizar-se não seria bem o termo, pois as dezenas de faculdades novas postas no mundo custavam tão caro que os bolsos dos pobres nunca chegariam lá. Quanto aos estudantes bem providos, pagavam muito para um aprendizado ralo. Ou competiriam nas universidades públicas, seguramente mais difíceis. Nestas o pobre não teria vez. Os “cursinhos” preparavam bem, a poder de dinheiro que o desafortunado não tinha…

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