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Jones monta sua Faculdade de Direito – II

Jones monta sua Faculdade de Direito – II
(Aula Magna)

Mr. Jones estava satisfeitíssimo. Com o auxílio de um genial intermediário, conseguira finalmente montar sua Faculdade de Direito, aproveitando o campus dos fundos de sua casa. Havia lá um galpão, ou antiga estufa, que abrigava nos bons tempos os carros antigos colecionados pelo inglês. Um “Morris Minor”, um “MG 1954″ e uma conversível “Mercedes” já tinham estado ali. Agora, com tempos difíceis, o remédio era a Faculdade de Direito. Um “sebo” de Jurubeba fornecera os livros. Dez mil volumes. Tinha até uma coleção completa das obras de Freud, em castelhano sim, embora os novos alunos não entendessem muito da própria língua portuguesa… mas ficava bonito. Carteiras herdadas de um colégio de primeiro grau falido, alguns “telões”, computadores, impressoras de segunda mão e pronto. O nome da Faculdade foi escolhido por Mrs. Jones: “Instituto Hamlet de Ciências Jurídicas”, em homenagem ao maior poeta inglês. “Ser ou não ser”, eis a questão. Pois agora era. Havia mais uma Faculdade de Direito em Jurubeba, competindo com a UNIP, a UNIBAN e outras setenta e poucas. Lá estava o Instituto “Hamlet”. O Ministro da Educação fora convidado para a aula inaugural. Jones não sabia se ele viria ou não, porque havia uma ciumeira terrível em Jurubeba quanto a visitas assemelhadas. Se viesse, seria um primor, principalmente em razão dos repetidos elogios feitos ao Ministro por Fernando I e Único, Rei de Jurubeba.

Quem proferiria a preleção inaugural? Jones pensou bem. Consultou alguns amigos do ramo. Antonio Carlos Magalhães? Era senador importante, mas pareceria mais político convidar um daqueles deputados influentes no Conselho Nacional de Educação. Ou talvez o próprio presidente daquele colegiado? Não ficaria escandalizado com a Faculdade de Direito posta no meio de um jardim? – Acho que não –, respondeu Mrs. Jones. Afinal, o requisito estava cumprido. Havia o campus – Por acaso a UNIP não tinha campi em todos os lados? – Preste exame de classificação e ganhe uma viagem à Europa, com acompanhante –, sussurrava Mrs. Jones, divertida. Ou então: – “Não deixe para hoje o que pode fazer amanhã. Pague a matrícula em cinqüenta e duas parcelas sem juros, com cartão de crédito do seu avô, aquele que está arrolado no inventário do defunto querido”. Ou ainda: – “Se não tiver dinheiro ou cartão, pague com títulos da dívida do Ministério da Reforma Agrária, aqueles que os advogados públicos não aceitam em garantia de dívidas do INAMPS. Nós aceitamos. Venham todos, meninos, com ou sem curso secundário completo, damos um jeito… façam o supletivo ao mesmo tempo e por correspondência… por correspondência não, façam pela Internet, com pós-graduação embutida e visitas à Sorbonne, Yale e Harvard.”

Deliciava-se Mrs. Jones com os projetos do casal. Ia dar certo, é claro. Noite de festa em Jurubeba. O corpo docente seria formado por doutores ou mestres em Direito. O Conselho Nacional de Educação ficaria satisfeito. Não precisariam dar aulas, desde que recebessem pro labore digno. As becas seriam alugadas especialmente para a ocasião. O título da aula inaugural não seria problema. Qualquer coisa assim como “O ensino do Direito no Brasil a partir de Jarbas Passarinho.” – Bombástico! – comentou Mrs. Jones. – Beautiful, beautiful – exclamou o marido… Ah, era precisa respeitar os limites territoriais, como se respeitavam os territórios da Máfia nos Estados Unidos ao tempo da Lei Seca. Ou então, raciocinou Mrs. Jones marotamente, seria importante não cuspir além da linha divisória traçada na terra pela molecada do outro grupo. Cuspiu ali, era guerra aberta. O grande problema, à moda do tempo de criança, é que uma das quadrilhas tinha padrinhos fortes. Vai daí, no meio da briga, o líder poderia apelar: – ” Paiiieeeeeee… vem cá, tô precisando de ajuda!… e o paizão chegava logo, dispersando a gangue inimiga. – Aqui é campus dos meus meninos. Não atravessem. Perdem seu pedaço de rua e depois não tem mais!

Voltando à Faculdade de Direito “Hamlet”, há outras ramelentas instituições em formação. O Ministro da Educação não vê. O Conselho Nacional de Educação não enxerga. Uma poluição total. Mr. Jones não está nem aí. Vai ter sua aula inaugural, com livros bichados por cupim, corpo docente alugado, aula magna e algumas brilhantes considerações do jurista convidado. Só o Ministério Público Federal, hoje, poderia investir contra isso. Mas onde está a aguerrida Instituição? Anda atrás do Nicolau. Não sobra tempo para outra santa batalha? A OAB tem investido valentemente, sem resultados expressivos. Temos nossas divergências, mas um esforço conjunto faria bem à comunidade jurídica e ao próprio povo, livrando-os de um dos setores mais corruptos da nação. Parafraseando Shakespeare: “Ver ou não ver as mazelas, eis a questão”.

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