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Jones vai ao centro de Jurubeba

Jones vai ao centro de Jurubeba

Jones gostava muito de Jurubeba. Visitava o centro velho, às vezes, procurando identificar, nos antigos prédios, a época da edificação. Aqui e ali conseguia isolar um começo do século dezenove, ou o resultado da influência saxônica numa ou noutra construção. Tinha medo dos bandidos que infestavam as ruas centrais, pois sua imagem de inglês portando bengala e vestindo fraque atraía, certamente, os ladrões de cebolões de bolso. Mas valia o risco, embora houvesse, nas praças e jardins, centenas de vendedores ambulantes negociando mil contrabandos adquiridos no ‘Paraguay’, e cercanias. Aqueles camelôs eram terríveis, principalmente na venda de radinhos de pilha que funcionavam durante uma semana e depois silenciavam permanentemente, mas Jones não deixava de comprar uma ou outra peça, lembrando-se de um par de meias adquirido, anos antes, numa feira livre, perto de uma barraca de pastéis, resistindo o vestuário bravamente ao uso rotineiro.

Naquela manhã quente, brincando com a bengala de castão de prata, Jones começou a atravessar um grande viaduto cujas extremidades iam dar num hotel outrora famoso e numa igreja beneditina donde fluíam maviosos sons de órgão de tubo. Havia alguma coisa diferente naquele trajeto. Jones não conseguia localizar a divergência, mas repentinamente percebeu que o comprido viaduto deixava aos pedestres a passagem absolutamente livre. Haviam desaparecido as duzentas ou mais barracas encostadas uma na outra, onde, meses atrás, toda a sucata de ferramentaria de Jurubeba era oferecida aos transeuntes. Jones se entusiasmou. A calçada estava limpa. Os jurubebenses passavam apressados, sem perceber a novidade. Jones agradeceu, contrito, àquele deus desconhecido que fizera o milagre de separar, à moda de Moisés, as águas lamacentas que sujavam, até pouco tempo, aquele tradicional elevado. Um milagre, certamente, obtido não se sabe como nem por quem. Realmente, sem comícios, brigas ou reclamações, o território estava limpo na antevéspera das eleições. Até quando? Por quanto tempo? Jones não sabia, mas registrou o fato para as tertúlias com Mrs. Jones. Valeria a pena se Jurubeba se mantivesse assim…

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