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Jones veste a beca do avô

Jones veste a beca do avô
(Ou “Tomem Desonestabom”)

Mr. Jones estava triste. Neto de advogado inglês que primava por respeitar as prerrogativas da classe, sentia-se deslocado num ambiente judiciário que negava, há muito, as tradições da advocacia. O Brasil, graças à incúria de sucessivos Ministros da Educação e de Câmaras de Ensino Superior tisnadas por interferências de esquemas político-financeiros mantidos por universidades particulares não muito atentas a normas pedagógicas adequadas, acolhia número assustador de advogados (cerca de quatrocentos mil), gerando-se, com isso, grande desmoralização. À margem de tal comportamento negativo, a qualidade do ensino descambava para o ridículo, havendo notícia de analfabetos aprovados em vestibulares. Jones mandava cartas a Fernando I e Único, Rei do Brasil, a Paulo Renato, Ministro da Educação e a conselheiros daquele Ministério, exortando-os à reflexão. As reclamações não surtiam efeito. Parecia, aliás, que as reivindicações provocavam resultados piores. Fernando I e Único estava mais preocupado com as eleições, as boas-graças do Papa e com as honrarias recebidas no exterior. Perguntado por jornalista se confessara antes da comunhão, respondeu tratar-se de questão de foro íntimo. Paulo Renato não se importava com o Ministério, autorizando, inclusive, a defesa dos interesses de instituições que pretendiam aumento de vagas nas escolas de Direito. A Ordem dos Advogados, assustada, ensaiava reação. Os advogados, preocupados com a sobrevivência, apenas lutavam pelo pão. Curiosamente, ao mesmo tempo em que se permitia o aumento do número de Faculdades de Direito, promulgavam-se novas leis admitindo que o povo se apresentasse aos juízes desacompanhados de profissionais especializados.As universidades se intrometiam cobiçosamente nos Conselhos da O A B. Jones gritava, ofendia até, não conseguindo entender a origem daquele fenômeno deletério. Sentia, somente, que havia muita lama no Ministério da Educação. A falta de vergonha era tamanha que os componentes dos diversos setores daquele órgão não se sentiam obrigados a uma única explicação. Tratar-se-ia, no máximo, de formiga saxônica tentando picar o couro sujo de um elefante repleto de parasitas.

O inglês resolveu protestar simbolicamente. Pôs a beca do avô, aquela usada no tempo em que um monstro ainda habitava, em Londres, as águas brumosas do Lago Ness. Assim paramentado, foi à Praça da Sé. Código Penal nas mãos, denunciou a todos, à moda dos pregadores de rua, a enorme negligência ( se pior não fosse) com que se cuidava da advocacia no Brasil.

Veio a polícia, atraída pelos brados. Havia um louco, segundo denúncia anônima, fantasiado de padre, deitando falação incompreensível. Mendigos, desempregados, meninos drogados, homens e mulheres esfarrapados, um ou outro comerciário em hora de almoço, mulheres sofridas agarrando as bolsas para não perderem os tostões reservados ao sanduíche de carne moída, eis a platéia do saxão. Achavam engraçado aquele gritador, encostado no marco zero de São Paulo, exigindo honestidade de Paulo Renato e da Câmara de Ensino Superior. Ali pertinho, dentro do camburão, o sargento da Rota perdeu a paciência. Convocou seus soldados.
“Prendam aquele desgraçado. Tá falando mal do governo. Não sei quem é o tal do Paulo Renato, mas é autoridade. Ponham o urubu no meio dos cheiradores de cola. E vamu trabalhá, pessoal. O cidadão paulista qué segurança e tranqüilidade. Se dependê da gente, segurança vai tê.

Jones foi arrastado, de beca e tudo, para dentro do caminhão malcheiroso. Curtiu dois dias de prisão especial numa cela perebenta. Alguém foi buscá-lo. Internaram-no em clínica psiquiátrica paga pela Caixa de Assistência. Os médicos diagnosticaram esquizofrenia. Aquele inglês doido cismara que havia desonestidade num canto qualquer do Ministério da Educação. Mitomania,. certamente. Mrs. Jones, convocada, recebeu um conselho: “- Fecha a boca do homem, madame. Ele tem alucinações. Dê-lhe este remedinho, Uma cápsula por dia. É anestésico muito eficaz. O pessoal todo, aqui, toma uma pastilha a cada vinte e quatro horas. Chama-se “Desonestabom.” É tiro e queda na cura dos insensatos

Jones, hoje, passeia calmamente pela Praça da Sé. Tem a visão embaçada. Olha e não vê a podridão do ensino universitário no país. Mrs. Jones, entusiasmada, proclama aos ventos as virtudes do santo remédio que deixou o marido feliz. Um “desonestabom” ao dia, para todos. É de graça. É só tomar para crer!

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