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As Bruxas de Blair

As Bruxas de Blair
(Ou “A volta de Mr. Jones”)

Mr. Jones, quando criança, lia muito. Estudava num colégio anglicano, no Condado de Essex. Seus mestres, em maioria, eram pastores ou ministros protestantes. Chegando à adolescência, aprendeu o latim. Aliás, alguns colegas decoravam textos bíblicos, voltando-se à crença luterana. Contrariamente a Jones, que se transformara em advogado, aqueles convocados aos céus haviam escolhido a magistratura, atraídos pelas longas cabeleiras postiças ainda usadas pelos juízes ingleses. Menos mal: nada como um ex- quase sacerdote para aplicar a justiça. Com tais méritos, poder-se-ia chegar à Suprema Corte, conciliados o sagrado e o profano.

Voltando-se às leituras de adolescente, Jones trazia à cabeceira da cama dois livros preferidos: Robin Hood e Ivanhoé. O primeiro contava, todos sabem, as aventuras de um nobre inglês obrigado a fugir para a selva, transformando-se em ladrão que furtava dos ricos para distribuir aos pobres. O segundo dizia com outro bem-nascido que devotara a vida ao endeusamento de uma dama (Lady Mary), transformando-se, no meio daquilo, na paixão de Rebecca, filha de um comerciante judeu e financiadora das armas, do cavalo e do escudeiro com que aquele herói defenderia mais tarde a honra da rainha de Inglaterra.

Como se vê, os sonhos do Jones menino-moço tinham íntima relação com as noções de coragem, lealdade, honra e dedicação às boas causas, tudo enlaçado naquelas armaduras luzidias usadas pelos guerreiros que se enfrentavam dentro das paliçadas (Daí, em processo, vem liça, donde o derivado lide). Vale o prólogo para demonstrar a veneração de Mr. Jones pela Saxônia. É bom recordar, igualmente, que o amor do inglês pela terra-mãe advinha do qüinqüênio posterior ao término da Segunda Guerra Mundial. Aos quinze anos, com efeito, Jones devorava os relatos dos desafios aéreos enfrentados pelos pilotos ingleses, sempre em minoria, lutando contra os potentes alemães em defesa da pátria, impedindo que a suástica tremulasse no histórico palácio de Buckinghan.

Aquelas paixões da mocidade se mantiveram até a invasão do Iraque, cinqüenta anos depois. Aos 67, Jones viu e ouviu um Primeiro Ministro, tresloucado, pregando união a antigo aliado da segunda guerra. Seu nome: Blair. Aquele homem, segundo fofocas londrinas, dormia na cama antes ocupada por Churchill. Não lera Robin Hood nem Ivanhoé. Sua moral não se concretizava na lealdade dos combates a fio das lâminas das espadas, mas nas incursões de blindados e disparos dos foguetes que abriam crateras à beira ou dentro dos templos e casas de família. O Primeiro Ministro teria apoio da maioria do povo. Jones tirou do criado-mudo os dois romances. As regras vigentes para Ivanhoé não valiam para o burguês Tony Blair. Restou a amarga consciência de que o Primeiro Ministro era iletrado, desconhecendo, mesmo, as lendas dos menestréis. Deve ter sido cooptado por bruxas malvadas que ferviam- e fervem ainda- cogumelos venenosos postos em cadinhos atirados sobre homens, mulheres e crianças perigosos à supremacia da coroa inglesa. No fim de tudo, vai ser difícil explicar aos meninos e meninas, no futuro, que surgiu na Inglaterra, em 1215, a “Magna Carta”, conjunto de preceitos marcadores dos primeiros raios de libertação dos povos. Coisa feia fez Blair. Esqueceu-se da datação do palácio de Buckingham (Século XVII), não podendo, sequer, competir com uma ou outra mesquita de Bagdá. A esta altura, o burguês – deve ser guindado a Conde, brevemente – não merece repouso na cama que abrigou o corpo cansado de um Winston, aquele gordo e devotado líder que disfarçava lágrimas vertidas para moços dilacerados pela sanha de Adolf Hitler. Curiosamente harmonizam-se o ditador nazista e o manda-chuva saxão. Ou a harmonia é triangular (Bush é o vértice), uma simbiose só explicável pela necessidade da dominação econômica. O resto é conversa mole.

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