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Mr. Jones volta das férias

Mr. Jones volta das férias
(Ou “Good Morning, Cristovam Buarque”)

O anterior Ministro da Educação, Paulo Renato, livrando-se da vigilância de Mr. Jones, voltava aos afazeres particulares. Tornar-se-ia, logo, reitor de uma grande universidade brasileira. Deixava o ensino e o estudo do Direito em pandarecos, com faculdades montadas, inclusive, sobre a copa de árvores frondosas na Amazônia. Na verdade, sem terem mais o que inventar, algumas provedoras já investiam em direito indígena, especialidade que faria um bem enorme aos silvícolas mas que dependeria, obviamente, de um curso preliminar de alfabetização de adultos. Curiosa, aliás, a noção que os selvagens brasileiros tinham e têm ainda da propriedade e da posse. Conta-se que os antigos habitantes da selva demarcavam suas palhoças com fios de algodão, não transpostos pelos outros a não ser para visitas ocasionais…

Volte-se ao Ministério da Educação: Mr. Jones, extinguindo-se a gestão Fernando Henrique e com ela a tarefa destruidora de Paulo Renato, pensou ter férias merecidas. Pretendeu ir à Inglaterra, revendo uns parentes afastados que moravam num subúrbio de Londres. Desistiu por duas razões: Londres abrigava Blair, sanguessuga de vidas no Iraque; de outro lado, o Ministério da Educação, no Brasil, continuava fazendo vítimas culturais. Pois não é que havia, naquelas bandas de Brasília, um silêncio tumular atinente às prometidas sindicâncias na Câmara de Ensino Superior, Conselho Nacional de Educação e quejandos? As universidades continuavam montando seus “campi”, fazendo-o desenfreadamente. Aparecia uma nova picaretagem: cursos de pós-graduação em sentido estrito, mas não vinculados a Faculdades de Direito. Além disso, surgiam, já, movimentos organizados pela extinção dos exames de estado (Exames de ordem), sob o argumento de que a vida se incumbiria de selecionar os mais capazes. Por fim, havia campanha maciça contra advogados, pretendendo-se eliminar a intermediação exercida por eles entre as partes e a Justiça. Havia, enfim, um movimento sistemático voltado à desmoralização da advocacia, a exemplo do que acontecera na China, muitos e muitos anos atrás, com os médicos. Sob o influxo comunista, o governo chinês havia reduzido o estudo da medicina a dois ou três anos. Houve, logo, desenvolvimento enorme de fábricas de caixões de defuntos…

Não se perca a história da interrupção das férias de Mr. Jones. Quase cooptado na idéia de montar uma Faculdade de Direito no quintal de sua casa (Mrs. Jones já encontrara o nome: Instituto Jurídico 4×4), fora reequilibrado por algumas qualidades éticas próprias dos ingleses anteriores a Blair. Assim, resolveu cobrar do novo Ministro da Educação, Cristovam Buarque, os resultados das prometidas providências moralizadoras. Mandou-lhe uma carta em bom português, querendo saber das coisas. Mrs. Jones, apreensiva, advertiu o marido, entre um e outro golinho de Sherry: “- Não seja compulsivo, Jones. Esqueça o processo corruptivo instalado no ensino superior brasileiro. Cristovam é apenas um outro…”

Jones, ingênuo como todo inglês de velha cepa, não pudera votar em Lula. Portava a velha carteira “modelo 19”. Mrs. Jones, entusiasta do PT, havia contribuído para a vitória do metalúrgico. Assim, o saxônico personagem acreditava em Cristovam. Entretanto, dono de uma obsessão quase psiquiátrica, decidiu, no fundo da consciência, dar um prazo de noventa dias a Buarque. Queria resultados. Pretendia uma vassourada exemplar no tapete bichado em que se transformara o ensino do Direito no país. Ultrapassado aquele termo, o extravagante inglês vestiria o velho “Kilt”, retiraria o arcabuz vernacular da parede e exigiria contas. Afinal, era credor do novo governo. Tinha poucos amigos lá dentro, mas sabia escrever. Mandaria umas cartas devidamente corrigidas por Mrs. Jones. Alguém se interessaria. O Ministério Público Federal, por exemplo. Vem aí, segundo consta, uma lista tríplice para a escolha do novo Procurador Geral da República. Pode ser um dos temas da campanha a moralização do ensino e do estudo do Direito no país. Jones não tem nada com isso. Quem tem?

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