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Furto de quadros famosos

Paulo Sérgio Leite Fernandes

O cronista é um quase-quase. Pinta razoavelmente bem, toca piano o suficiente para enganar, tem xilogravuras arquivadas perto de artistas famosos e, sem qualquer vaidade, é criminalista há cinquenta e quatro anos (dizia cinquenta e dois, mas o assistente Lucas Andreucci o corrigiu). Dentro do contexto, conhece um pouco da arte pictórica, passeando sem grandes dificuldades por artistas nacionais, principalmente os modernos. Tinha um lindo “Benedito Calixto”. Recusou-se a trocá-lo por um pequeno “Brecheret” marmóreo (mulher nua em chaise longue, não mais que trinta centímetros de luminosa escultura a povoar meus sonhos, ainda, quarenta anos depois). Portinari também é meu conhecido. Tenho ligação com o ex-Prefeito de Batatais. Lá, a Igreja Matriz guarda ciosamente obras lindas desse brasileiro que morreu antes do tempo, por teimosia aliás, porque se envenenou com o alvaiade usado no branco de suas criações magistrais. Enquanto o cronista escreve, lhe vem à cabeça a São Paulo antiga, Brecheret e Portinari lecionando no velho “Liceu de Artes e Ofícios”, d’onde saíram inclusive muitos móveis ornamentando o Tribunal de Justiça do Estado, merecedor da admiração dos advogados, inclusive criminalistas, no entremeio das sustentações orais.

Tudo isso se enovela na consciência do escriba, nesta manhã de 13 de junho de 2013, enquanto o rádio do carro, enganando o trânsito, transmite um pedaço de composição de Paulo Vanzolini: “– Na Praça Clóvis / Minha carteira foi batida / Tinha vinte e cinco cruzeiros / E o teu retrato / Vinte e cinco / Francamente, achei barato / Pra me livrarem / Do meu atraso de vida (…)”. Vai por aí, mas a emoção tinha pouca relação com a fotografia subtraída. O poeta até gostou.

Vejam-se os mistérios do cérebro humano. O cronista ligou a mulher nua de Brecheret, as pinturas de Portinari, as tentativas reiteradas de usar bem o pincel e um dos maiores poetas populares que o Brasil já teve. Não para nisso a sucessão de ideias condicionantes, porque o noticiário matutino traz a notícia, em continuação, de que alguém furtou um “Portinari” autêntico da parede da sala de um experiente criminalista paulistano, Carlos Eli Eluf. Segundo parece, o original havia sido substituído por uma cópia, percebendo-se a fraude muito tempo depois. Cogita-se de um suspeito, ex-marchand, habitué visitante do proprietário. Isso lembra um pouco filme com Pierce Brosnan (“Ladrão de diamantes”). Um milionário se envolve no desaparecimento, de museu de Nova York, de quadro pintado, talvez, por um Cézanne, Manet ou Monet. O cronista não vai conferir. Quem quiser que corrija.

Ser vítima de furto de um quadro diferenciado é extremamente nobilitante. O escriba tem em casa, na sala de visita, sobre o piano e nos quartos, um monte de pinturas que a Dyonne finge apreciar mas, lá com seus botões, pede pelo amor de Deus para não aparecer mais uma. Seria uma bênção se subtraíssem, por exemplo “Um Paul qualquer”, cuja foto encima o texto. Pode um Roberto Delmanto, um José Roberto Batochio, um Tales Castelo Branco, aproveitar-se de descuido pré-ajustado e fazer a substituição por uma cópia digital. O escrevinhador vai fingir descobrir isso meses depois, com uma alegria imensa da consorte. Providencialmente, aquilo sai no jornal. Com uma diferença básica: não é um “Portinari”, mas um humilde, embora trágico, “Leite Fernandes”. Quem se habilita?

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