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Psicopatia e contágio nas manifestações de rua

Paulo Sérgio Leite Fernandes

         Existem vários tipos de psicopatias. Fundamentalmente, em algumas obsessões, a criatura, as pequenas comunidades e as ditas multidões podem ser acometidas por uma espécie de contágio, no bom ou no mau sentido. Há as enormes procissões, por exemplo, nos dias consagrados à padroeira de Aparecida, numa arregimentação que, segundo dizem, pode até resultar em curas milagrosas. Milhões de pessoas se reúnem para os banhos sagrados no rio Ganges e outros, na Índia. Adolf Hitler reuniu em Berlim, enquanto preparava a sua guerra de dominação, cerca de duzentas mil pessoas. Sem muita preocupação com ligações territoriais ou temporais, cite-se, no Brasil, também, a Marcha da Família com Deus pela Liberdade. O escriba, aos vinte e nove anos, participou daquele ajuntamento. Adiante, na “Diretas já”, dava os braços a outros companheiros que pretendiam o retorno do país à normalidade política. Assim, o cronista não estranha o momento emocional cercando os indivíduos enquanto reclamam contra o Poder instituído. Não deixa de ser uma compulsão contagiante. Nas últimas semanas, como se pode ver, passeatas múltiplas, estendidas pelo país todo, reivindicam soluções básicas ou até sofisticadas para os problemas da Administração. A presidente da República, eleita até por ser, na mocidade, comunheira em passeatas do tipo, teve a popularidade reduzida a 30%. O Brasil acaba de ganhar a Copa das Confederações, isto ontem, em episódio heroico e demonstrador da superioridade da raça que ainda não temos. À margem ou a quinhentos metros do Maracanã, o populacho se reuniu e encetou outro episódio do tipo enunciado. A manhã paulista acorda com estradas circunvizinhas paralisadas por caminhoneiros. Pretendem estes uma porção de coisas. Na cabeça do velho escriba passou, até, colocar no plano concreto a promessa, há muito tempo feita, de passeata de advogados, munidos todos com panelas e outros utensílios, enfrentando os portais eletrônicos do Fórum Criminal, fiados tais profissionais na chamada igualdade entre eles, juízes e promotores. Pretenderiam que toda a comunidade forense passasse ali por dentro, provocando os alarmes, se necessário, mas demonstrando equanimidade nas exigências e nas prerrogativas da família forense. Se e quando o fizessem, aproveitando as circunstâncias, estaríamos imersos, também, na virose da reivindicação popular. Veio, em contrário, raciocínio no sentido de que a obsessão começa e não se sabe onde vai parar, pois as multidões têm inteligência própria e as lideranças surgem muito mais da periferia faminta que da intelectualidade. No meio da dicção do texto, o escriba se lembrou de pequena cidade, num canto qualquer do mundo, em que toda a população, dos velhos às crianças, riu incontrolavelmente durante seis meses, cessando aquela conduta histriônica da mesma forma que surgiu. Visualizadas assim, as atividades do homem em comunhão episódica podem dirigir-se a qualquer objetivo, positivo ou negativo, mas atingindo, às vezes, elasticidade indestrutível. O país está chegando a isto, levando os políticos em geral e a presidente da República em particular a concessões múltiplas, desde a redução de tarifas a propostas diversas de anulação de prerrogativas deferidas a classes diversas. Isso já começa a funcionar como um grupo de crianças benfazejamente teimosas, exigindo comida. Os pais dão. É pouco. Estas, provavelmente por terem muita fome, querem mais. Os pais dão. Meninos e meninas querem, agora, melhoria nas palafitas. Os pais dão, podendo ou não, mas dão. Vai daí, numa determinada hora, os pais não mais têm o que dar, até por terem dilapidado, lá atrás, dolosamente, o patrimônio da família. No fim de tudo a criançada age como no episódio posto no filme “Cría cuervos”, de Carlos Saura. Põem raticida na sopa da avó. Os petises crescem. Tornam-se adultos. Assumem as lideranças. Começa tudo outra vez. La nave va.

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