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Nas ditaduras, garrafa arrolhada pode ter veneno em vez de mensagem

Paulo Sérgio Leite Fernandes

         Surge no jornal “O Estado de São Paulo”, de 06 de outubro de 2013, reportagem extensa sobre apuração, em curso, correspondente a assassinato de vítimas do autoritarismo no “Cone Sul” nos idos de 70/80. Valeria a pena a transcrição total da reportagem, mas é grande. Anote-se, sucintamente, que em setembro de 1978, em Montevidéu, a mulher do senador uruguaio Mario Heber teria tomado um cálice de vinho branco extraído de garrafa remetida ao marido. Morreu quinze minutos depois. Em Santiago, janeiro de 1982, o ex-presidente chileno Eduardo Frei Montalva morreu numa clínica depois de escrever um bilhete à neta. O escrito dizia: “– Levem-me daqui o quanto antes”. As duas famílias, daquela data a esta, têm feito esforços no sentido de descobrir o que houve, constando que Cecilia Fontana, mulher de Heber, teria sido envenenada com pesticida posto dentro da garrafa de vinho. Quanto a Montalva, havia sido trucidado por composto de tálio e gás mostarda. As investigações prosseguem, tentando-se saber se Pablo Neruda teria sofrido sorte (ou azar) assemelhada. Tudo vem a pelo paralelamente à pretensão de submeter a exames os restos mortais de João Goulart, havendo suspeita de morte não natural.

A reportagem citada no “O Estadão”, tocante a Goulart, traz referência a depoimento de um ex-agente do serviço secreto do Uruguai, afirmando a testemunha que um químico, de nome Carlos Miles, estaria envolvido na morte de “Jango”. Os comentários vão adiante, mencionando envolvimento da CIA. Tocante a Miles, parece que caiu de uma janela providencial.

A notícia posta no matutino “O Estado de São Paulo”, sem esforço, pode transformar-se em livro de espionagem. Há muitos anos, quando escrevi “Dolores”, pude referir acontecimentos, em São Paulo, aparentemente fictícios mas refletindo hipótese assemelhada quanto ao resultado. Recentemente, em livro editado aqui no Brasil (“Memórias de uma guerra suja”), Cláudio Guerra, em depoimento a Marcelo Netto e Rogério Medeiros, conta particularidades referentes à “Operação Condor”, numa série grande de participação conjunta de ditaduras postas no chamado “Cone Sul”. Coisa feia.

Os variados segmentos da “Comissão da Verdade”, uns maiores, outros menores, agressivos uns, preguiçosos outros, apuram, no Brasil, variadíssimos episódios dramáticos partilhados por opositores do regime ditatorial, havendo, de outro lado, prepostos dos regimes de exceção. Na realidade, a grande maioria dos envolvidos em torturas e mortes violentas já se foi, porque faz muito tempo e mesmo animais selvagens, enquanto jovens, levam anos para endurecer as presas. Assim, os agentes dos chamados órgãos de inteligência daquele tempo deveriam ter, no mínimo, uns 35 anos, idade boa para a complementação do curso de carrasco. O pós-graduação vinha, segundo consenso, aos 45 ou 50 anos, época em que o torturador se habituava maiormente a utilizar tenazes e choques elétricos sem emoções maiores. Em termos bem práticos, os personagens, se não prestando contas às divindades, devem estar babando por aí. Pesquisou-se, nos Estados Unidos da América do Norte, o papel desempenhado pelos órgãos de inteligência daquele país nas atividades da repressão aqui desenvolvidas.    Segundo ainda o jornal “O Estado de São Paulo”, veio pouca coisa e, ainda assim, repleta de tarjas negras em trechos embaraçosos. A Ordem dos Advogados do Brasil, em São Paulo, tem sua “Comissão da Verdade”, recebendo o direito de uso daquele prédio da Auditoria de Guerra sediado na avenida Brigadeiro Luís Antônio, palco de muitos embates entre criminalistas valorosos e acusadores enlaçados nas ações penais movidas a variados subversivos. Do meu lado, guardo algumas lembranças de quem fez e de quem não fez, em uma época em que não era difícil o enlaçamento com o regime militar, realçando-se a chamada “Escola Superior de Guerra” e as oportunidades de aperfeiçoamento, inclusive, nas carreiras jurídicas. A OAB não tem uma só parcela de culpa nos diversos episódios de acasalamento concupiscente entre o regime autoritário, o Poder Judiciário e o próprio Ministério Público, não se falando em Polícia, pois Polícia é Polícia sempre, costurada na bainha da calça do opressor.

Tais reflexões vêm à consciência do cronista em função da dita reportagem posta no matutino mencionado. Há, no acervo poético-musical de Paulo Vanzolini uma expressão curiosa: “– Os pecados de domingo, quem paga é a segunda-feira”. Resta saber se aquela zona cinzenta misturada nos idos dos anos de chumbo merece ter seus reposteiros totalmente abertos, vendo-se então o herói da década sangrenta transformado em esbirro escabujante, valendo igualmente o oposto, porque o terrorista de ontem é o reverenciado do amanhã. Curiosa mas tragicamente, o ponto de identificação de um e de outro precisa ser procurado no isolamento dos pressupostos éticos da conduta do indigitado ao tempo em que provocado e às vezes seduzido pelo poder dominador. Vê-se, nisto, uma das pouquíssimas características de carimbamento do peito dos partícipes com um ou outro logotipo. A título de exemplo, é bom dizer que houve magistrados, naquele período, censurados, punidos e afastados pela não solidariedade com os atos de força e espicaçamento dos mamilos dos afligidos, havendo promotores de justiça também, pouquíssimos por sinal, recusando-se a bailar com os bruxos portadores do chicote do autoritarismo. Dentro do contexto, não se pode, sob pena de seriíssima ofensa àqueles pressupostos morais mencionados, manter comendas e galardões nos comunheiros do militarismo implantado a partir de 1964. Desgraçadamente, o futuro, com suas verdades, colhe criaturas apaixonadas, lá atrás, pelos detentores da força desmedida. Pega-os, o porvir, ou já esvanecidos ou já postos sobre as tradicionais porções de cal. Valeria a pena desvestir tais atores das guirlandas e dos diplomas, mostrando-os nus à coletividade? Ou seria melhor deixá-los onde estão – e como estão – abraçados aos próprios horrores que praticaram – ou deixaram que se praticassem, sem resmungo qualquer? O cronista se lembra vagamente de um títere enrodilhado em processos apuradores de torturas consumadas anos e anos passados, não se lembrando entretanto do caso e do país, mas apenas do tema: o acusado tinha lá seus quase noventa anos, perdera a consciência do todo e comparecia à Corte como se fora um velho e titubeante crustáceo. E foi condenado, certamente, mas nem ele próprio sabe mais o porquê. No fim das contas, são fantasmas do passado. É bom, no centenário de Vinícius de Moraes, uma paródia sadicamente burlesca: “– Quem pagará o enterro e as tulipas negras, se eu me morrer misturado nos meus ódios?”*.

* “Quem pagará o enterro e as flores, se eu me morrer de amores?” (Hora Íntima)

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