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Entre o salmão, a psiquiatria e a Coreia do Norte

Paulo Sérgio Leite Fernandes

         O nome científico do salmão é salmo salar. É originário, quem sabe, das águas marinhas próximas do Ártico. Consta ser delicioso, quando bem preparado (que o digam os chefs endeusados pela mídia). Aquele peixe tem propriedades medicinais, provendo regimes de pacientes acometidos por moléstias graves. Roberto Jefferson é, seguramente, um deles. Diga-se que o Deputado, hoje cassado, é dos melhores oradores vivos que o cronista já viu atuando. Faria par com o Ministro Barroso. Não se ofenda o último. Qualidade é qualidade. Curiosamente, um é juiz, outro é réu de cadeia pestilenta. Jefferson era grande e gordo. Fez cirurgia de redução de estômago, lá atrás. Doente e reduzido nos órgãos digestivos, sobrevive, carregando nas costas a mochila pesada de condenação criminal advinda da Suprema Corte. Delator, mas tal atitude, ocasionalmente, anda lado a lado com o estelionato judicial. A retribuição não vem. Evidentemente, as ações penais só têm três resultados: absolvição, inculpação ou extinção da punibilidade pela morte ou uma das formas de preclusão. A grande bruxa (a morte) é a pior, ou talvez nem seja. Ruim mesmo, do ponto de vista moral-psiquiátrico, é o gozo com que a imprensa trabalha a infelicidade do condenado. Comportamento não comparável, é claro, à carroça rangente nas ruas de Paris, mas ainda assim, subliminarmente, significando a mesma coisa: o descrédito, a vilania, o aviltamento, o esgarçar da dignidade inerente a todo ser humano, do nascimento à morte. Na verdade, os ucranianos racharam a marreta a estátua de Lênin. Saddam Hussein, além de enforcado, teve o busto destruído pelo populacho. Mussolini foi dependurado em galho de árvore, pelos pés, junto a Clara Petacci, desgraçadamente companheira das loucuras de um italiano apaixonado pelos bigodes de judeu austríaco tresloucado. Aqui no Brasil vêm acontecendo episódios dramáticos: Costa e Silva não é mais nome de escola. Já a Via Dutra há de deixar de o ser, assim como a Castelo Branco, provavelmente, morto o último Presidente em desastre num avião Bandeirantes, restando a suspeita de explosão provocada. Wladimir Herzog é honrado, hoje. É a eterna contradição humana. Antes herói, hoje delinquente. Infrator lá atrás, busto de bronze no tempo presente. Mandela ficou encarcerado vinte e sete anos, aclamado atualmente por milhões, inclusive por Dilma. Protocolarmente, o discurso da Presidente é a repetição do óbvio. Escrevi há muitos anos que as efígies servem à alegria dos netos e ao ninho dos pardais. Não é bem assim. Há na França caverna (Lascaux) guardando, nas paredes, figuras rupestres com trinta mil anos de velhice. Os egipcíacos protegiam suas múmias em sarcófagos dourados, quando podiam, enfaixando-as em linho segundo técnica especial, se e quando mais não pudessem fazer. Bem o diz Mika Waltari em “O Egípcio”, apelido de um dos maiores oncologistas vivos que o Brasil tem (Humberto Torloni).

Já se vê que o ser humano, sofisticadamente, sobrevive depois de morto, mantendo-se assim de pai a filho, a neto e à descendência em geral, muito além dos retratos amarelecidos postos nas paredes das mansões ou das taperas. Funciona assim. Homens e mulheres se vão mas os nomes ficam. Enquanto aqui estão, e mesmo depois, merecem a plenitude do respeito dos bons cidadãos. Processados criminalmente, têm direitos sim. Entre estes, sobrenada a prerrogativa de preservação da imagem pública. Não por outra razão, ao tempo da inquisitoriedade espanhola, e mesmo de segmentos outros daquela perseguição cruenta, os processos tramitavam no segredo dos calabouços. A execução era pública, como aconteceu a Tiradentes, para não se me dizendo alienista. A cabeça fincada num poste em Vila Rica, membros espalhados aqui e ali, no caminho. Isso aconteceu a muitos no mundo, inclusive a Damiens, autor de crime de parricídio, porque tentou matar Luís XV. Os cavalos postos no esquartejamento não conseguiam fazê-lo. Musculatura forte demais ou equinos frágeis. Os carrascos auxiliaram a golpes de machado.

Uma das características da mente humana é a aptidão a usar metáforas (ou parábolas?). Não sei se a capacitação a tanto é restrita a homens e mulheres, porque a meu lado, enquanto escrevo, a cadela de estimação, dita evadida do Instituto Royal, brinca com bola de tênis, fingindo alguma coisa. Dá para pensar. De qualquer maneira, a imaginação, ou qualidade de fantasiar, permite ao homem, inclusive, sublimar a dureza de realidades traçando roteiro paralelo ao que se pretende transmitir. Dir-se-ia haver falta de equação adequada entre o desmembramento de antanho e a redução maldosa, paulatina, vagarosa, sádica, masoquista em alguma proporção, levando multifária multidão ao despojamento, ponto por ponto, costura por costura, pedaço por pedaço, traço por traço, rasgão por rasgão, da dignidade dos condenados no tristemente famoso processo a colher as atenções, o sono, a ira, os suores, os ritos, os aborrecimentos, os destemperos, enfim, dos próprios juízes que na Suprema Corte se encarregam de dizer, enquanto se encerra o ano judiciário do maior Tribunal do país, quem, quando, como e onde deve curtir os rigores próprios ao empesteamento comunitário. Em sentido psicanalítico, digam-no os doutos. Há o povaréu, encostado nos portais das ruelas, babujando às vezes enquanto passa, rubiginoso, o carrossel puxado a duras penas pelos cavaleiros do apocalipse. Para tanto, contribuiu a Suprema Corte, ao abrir ao populacho os portões do Coliseu. A tanto, concorreu – e concorre ainda – toda a imprensa, indagando inclusive se um dos acusados morre ou não no calabouço ou pode ou não sobreviver sem mastigar o cozido prescrito pela medicina. Uma coisa sedutora, sim, porque havia pedaço dos circundantes a ulular quando, no circo romano, a fera ferreteava o corpo do infeliz, arrastando-o no entremeio da areia escarlate, assemelhadamente às cores de um Michelangelo, perenizadas, depois, no teto da Capela Sistina. Curiosamente, a mesma gente que escabuja o sofrimento dos réus (justo ou injusto, pouco importa), fica seis horas, em fila, esperando a hora e vez de ver os restos mortais de Mandela, líder mundial da pacificação. Sofisticadamente, o mesmo cidadão, intelectual, quem sabe, a disfarçar o olhar ante a imagem invertida de uma Petacci, não deixa de perpassar o pensamento no crucifixo que sustenta, com cravos enormes, o corpo de um deus. É uma coisa esquisita, sim, deliciando-se muitos com a notícia da cassação da aposentadoria de Nicolau, restando o ex-juiz meses em casa e devolvido agora a prisão fechada. Ou então, à mesa do almoço, o burguês circunspecto vê no centro, entre cristais, os olhos opacos da cabeça do mesmo salmão negado a Jefferson, aqui uma iguaria, lá a medicação. Há quem goste daquela parte do corpo do pescado, porque, aliás, o homem acaba comendo tudo aquilo que se move. E não se move, embora vivo ou morto. No meio disso tudo, Genoino tem o coração manquitolando, Jefferson é canceroso, uns estão bem, outros mal, mas todos merecem respeito, inclusive da Suprema Corte, tendo-o às vezes e não por todos. A título de encerramento, relembre-se o que é posto nos jornais do mundo inteiro, nesta sexta-feira, 13 de dezembro, antevéspera de Natal: o ditador da Coreia do Norte, Kim Jong-un, um garotão com seus trinta e poucos anos, doido seguramente, descobriu que seu tio era corrupto, mulherengo, usuário de drogas e jogador. Observados os costumes, ter-se-á feito a execução com a tradicional bala na nuca. Há alguns meses, sedutora integrante de conjunto musical, lá mesmo, foi acusada de pornografia, entre algumas infrações. Parece que a moça já havia dormido com gente importante. Um projétil na parte posterior do crânio. Assunto rápido. Não se fale mais naquilo. Dia desses o moço Kim Jong-un cai em desgraça. Matam-no também. Assim caminha a humanidade. Tocante aos condenados brasileiros, valeria a pena um toque de silêncio, ao menos isso. Chega. O estrépito há de fazer falta, inclusive, à TV Justiça, mas sempre se pode cuidar das doações das pessoas jurídicas aos candidatos a cargos eletivos. É recurso de segunda mão, mas ainda assim se poderá ver a Suprema Corte debatendo, soberanamente, os problemas nacionais. Até quando?

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