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Serra afirma que a Bolívia trafica cocaína

* Paulo Sérgio Leite Fernandes
Serra afirma que a Bolívia trafica cocaína
(Se não trafica, permite)


 Advogados criminalistas, quando surgem problemas sérios nos conflitos entre a lei e a desordem, costumam passar por traumas esquisitos: de um lado são profissionais, precisando reservar-se porque, no fim das contas, lidam com o crime em suas diversas manifestações; de outra parte, são cidadãos. Participam da comunidade, entrelaçam-se nas consequências das conturbações sociais, veem famílias inteiras preocupadas com possível contágio dos jovens em razão da atividade de intermediários na compra e venda de drogas alucinógenas. No entremeio, precisam de vez em quando meter a colher nos debates decorrentes de uma ou outra preocupação mais intensa. Aconteceu isso ontem, 27 de maio, data em que os jornais noticiaram no país inteiro trecho de manifestações de José Serra, ex-governador de São Paulo e pré-candidato à Presidência da República, seguindo-se retorção da pretendente à entronização, Dilma Rousseff. Evidentemente, havia assuntos variados chamando os dois a debate. Pontificou, entretanto, uma particularidade delicadíssima: Serra, provavelmente provocado, acentuou duramente que a Bolívia, país que faz fronteira com o Brasil, fazia vista grossa a tráfico de cocaína para cá, havendo também exportação ilegal de crack, cuidando-se, na última substância, de uma das piores formas de indução a dependência química. Paralelamente, ou um pouco depois, a candidata Dilma afirmou que as declarações do opositor criavam a possibilidade de incidente diplomático, porque interferiam na soberania do país vizinho, atribuindo-se àquele governo omissão, negligência ou coonestação na mercancia do alucinógeno. José Serra, embora não sendo a criatura mais simpática que o cronista conhece, exigindo muito esforço para análise equilibrada de suas pretensões ao governo do país, tem qualidades. Costuma ser direto e às vezes grosseiro nas posições assumidas, no que não difere do cronista, cuidando-se, quem sabe, de um ponto maior de aproximação entre ambos. Tem-se então, ligando-se o parágrafo à afirmativa anterior correspondente ao pundonor dos advogados criminais, que há necessidade de interferir porque, de um lado, um candidato à Presidência da República faz referências não muito edificantes a uma nação com a qual o Brasil mantém a plenitude das relações diplomáticas, abraçando-se os dois líderes máximos em diversas oportunidades, um fazendo metáforas e outro, quiçá, aprestando-se a tocar o indefectível charango. Alguém disse à candidata Dilma que surgia oportunidade de jogar o povo contra Serra, porque, no final das contas, a Bolívia estava ali perto e o chanceler Celso, parcialmente homônimo do outro, poderia correr o risco de tirar os sapatos à entrada no território circunvizinho. Daí, advertiu publicamente o adversário de tal circunstância, mormente no momento em que se estava procurando consertar uma dissidência correspondente à nacionalização do gás produzido pela Petrobrás lá. Perceba-se a ironia: acusações correspondentes ao tráfico de cocaína poderiam perturbar transações outras de caráter internacional, se levada a sério a imputação, havendo torcida a se entranhar na briga, com realce para a Venezuela de Chavez e os países integrantes da chamada Alba (Aliança Bolivariana para a América).

 Como dizia o famoso personagem de Shakespeare (Hamlet), “Ser ou não ser, eis a questão”. Admita-se que José Serra disse o que talvez não devesse ter dito, mas Dilma, de sua parte, deve estar na boca de todo pai e mãe brasileiros que têm filhos soltos por aí. Para estes, se realmente houver fluxo semioficial de cocaína para o Brasil, ignorando as autoridades de lá tal atividade nauseabunda, é caso de declaração de guerra. Todo pai razoavelmente preocupado com a descendência adolescente estaria disposto a enristar o fuzil e proteger as margens do rio Madeira, impedindo o desembarque da droga maldita.

 Há alguns anos, o cronista, com boa dose de previsibilidade, escreveu livro chamado “Dolores”. Um dos personagens principais era um jovem, filho de “cocalero”, tocador de charango nos bares de Sucre e Potosí, transformando-se depois em Presidente da nação boliviana. A história cuidada naquela obra era real. Descrevia-se armadilha posta, no Brasil, para aviltar a dignidade de uma mulher que exercia, na Bolívia, funções ligadas à substituição das plantações de coca por milho, trigo e cereais diversos. A infeliz apontava, nos levantamentos aerofotogramétricos, as regiões andinas que deveriam ser queimadas, provocando prejuízos grandes aos cartéis. O resto da história eu não conto. O livro foi editado pela “Juarez de Oliveira”. Vendeu alguma coisa mas, aqui, ali e acolá, não é qualquer um que pode se transformar em Paulo Coelho. Deve haver uma sobra na editora, se alguém se interessar. Há alguns na Bolívia. Dizem os que leram que é a biografia de Evo Morales. Esquisitamente, a obra foi posta no mundo quando o gajo ainda jogava bolinha de gude em Potosí…

* Advogado criminalista em São Paulo há cinqüenta anos.

3 Comentários sobre “Serra afirma que a Bolívia trafica cocaína”

  1. PSLF disse:

    Comentário para esse vídeo postado no youtube por foxlimacharlie:

    Em meio à polêmica, PF apreende 2 caminhões com cocaína da Bolívia.

    ISSO FOI HOJE!

  2. PSLF disse:

    Comentário para esse vídeo postado no youtube por adrianofsaraujo:

    Dilma é cocaleira e ponto final!

  3. PSLF disse:

    Comentário para esse vídeo postado no youtube por Azismite:

    Um monte de maconheiro na Bolívia e o IBAMA correndo atrás de quem faz viola com couro de tatu.

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