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O Liceu de Artes e Ofícios pega fogo

* Paulo Sérgio Leite Fernandes
**Gustavo Bayer
O Liceu de Artes e Ofícios pega fogo***

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Mal havia sido feita referência ao Liceu de Artes e Ofícios de São Paulo em razão da contribuição daquele reduto de artes ao mobiliário do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo (v. Crônica Furto de Quadros Famosos), mais outras muitas instituições públicas sediadas na metrópole, aquilo pegou fogo, não se conhecendo hoje, 04 de fevereiro de 2014, a extensão dos danos. O Liceu é, indubitavelmente, um pedaço da história de São Paulo. Dizia-se que havia um túnel ligando-o à Igreja dos Motoristas (São Cristovão). Segundo a lenda, atrás do altar-mor existia um alçapão. Quem nele entrasse atravessaria passagem apertada e iria parar no citado reduto artístico. Houve uma personagem muito ilustre, aliás, escrevendo pequeno livro sobre o assunto. Cuidava-se de história para crianças, mas o alçapão estava lá. Se a memória não falha (o cronista é um fabulador), o autor do livreto se chamava Brasil Bandecchi.

O Liceu de Artes e Ofícios preparou, de acordo com os revisores atentos ao passado metropolitano, artistas plásticos do porte de Cândido Portinari e Victor Brecheret, primeiro alunos e depois professores. Basta, no Tribunal de Justiça, um olhar sabido aos móveis para se conhecer da origem, com relevo para o 1º Tribunal do Júri.

Coincidentemente, o Presidente José Renato Nalini tomou posse solene ontem, na Sala São Paulo, obra terminada sob a força exemplar de Mário Covas, falecido a destempo. Parece que João Carlos Martins regeu orquestra sinfônica durante a efeméride (o cronista não pôde ir, embora tivesse vontade, pois conheceu João Carlos superficialmente quando o maestro tinha seus dezenove anos, nas Minas Gerais). São coisas que ficam lá atrás, mas ficam, o Liceu, os abolicionistas que passavam pelo túnel para esconder os escravos fugidos, o buraco no piso do antigo santuário, construído em taipa, Brecheret e suas ninfas, Portinari e suas obras sacras, mais o incêndio, tudo misturado num grande caldeirão contendo o tempo que foi e aquele que é. Parece que José Renato Nalini começa a gestão com ideias revolucionárias, inflamando a disputa entre o velho e o novo. Venha o fogaréu ao Liceu, então, expondo seu lado positivo. Boa sorte ao novo Presidente. No fim de tudo, as labaredas saem nas águas.

* Advogado criminalista em São Paulo há cinquenta e quatro anos.

** Áudio e vídeo

*** O texto é de única e absoluta responsabilidade do autor Paulo Sérgio Leite Fernandes. O intérprete Gustavo Bayer é apenas o ator.

Um Comentário sobre “O Liceu de Artes e Ofícios pega fogo”

  1. Rachel franco disse:

    Fico sempre muito triste quando sei de mais um pedaço da nossa cultura que vai embora! Quando vejo e sinto o cuidado como são preservadas as obras na Europa,desde as porcelanas minusculas até as catedrais,passando pelas aldeias onde ainda sentimos a alma do tempo vagando por lá! E aquí o descaso com tudo que é tido apenas como “velho” e que só serve para sucata. Onde a obrigação de atentar para o perigo de um incêndio? Isso nem passa mela mente dos ditos responsaveis pelo Liceu? Quiz muito estudar là.Não deixaram.O fogo não respeitou a arte! Não tem volta.

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