Home » Crônicas Esparsas » Tribunal Regional Federal da 3ª Região tem novo presidente (É Fábio Prieto de Souza)

Tribunal Regional Federal da 3ª Região tem novo presidente (É Fábio Prieto de Souza)

Paulo Sérgio Leite Fernandes

Há na literatura mundial alguns autores pouco lidos, mas geniais. Um deles é Pitigrilli. Todo jurista deveria lê-lo, em vez de copiar o que outro escreveu. Pitigrilli deixou, entre muitos contos, um chamado “O Experimento de Pott”. É história de um médico competente que se aborreceu, ocultando-se num país primitivo. Virou curandeiro. Evidentemente, sofreu concorrência dos feiticeiros locais. Foi submetido a processo catoniano. Em desespero, precisou abrir o baú e retirar todos os títulos auferidos durante sua primeira vida na Europa, demonstrando excelsa qualificação. Salvou-se.

Faz muito tempo tenho Pitigrilli na cabeça. Às vezes misturo as fábulas, mas não me dou ao trabalho de conferir. Fica por conta da imaginação. De qualquer forma, ao colar grau na Universidade Católica de Santos, em 1958 (ou 9?), não se fazia questão mínima de pós-graduação ou doutoramento. Havia na Universidade de São Paulo curso desse jaez. Assisti a algumas aulas, mas fiquei enfarado. Não fazia meu estilo. Paralelamente, transformei-me em professor titular de processo penal na “Casa Amarela”, com registro no MEC e tudo mais, pois mostrei os diplomas e comendas, como o Dr. Pott. Lecionei processo penal durante uns 20 anos. Aquilo cansou. No entretempo, entretanto, formei muita gente boa. Alguns amadureceram enquanto eu envelhecia. São advogados bem postos e desembargadores, uns federais, outros estaduais. Lembro, com bastante oportunidade, de Marco Antonio Rodrigues Nahum, Luiz Antônio Figueiredo

Gonçalves, Péricles Toledo Piza, Mário Devienne Ferraz, Vladimir Passos de Freitas, Cláudio Caldeira e Paulo Moura Ribeiro, perdendo-se alguns na memória. Nahum se aposentou há pouco tempo, como desembargador no Tribunal de Justiça. Moura Ribeiro é ministro no Superior Tribunal de Justiça. Vladimir Passos de Freitas foi presidente do Tribunal Regional Federal da 4ª região. Peluso, contemporâneo, chegou à Presidência do Supremo Tribunal Federal. É mais moço. Envelhece comigo. Fiz poucos promotores públicos, porque corrompia os jovens ideologicamente, contrariamente ao que hoje ocorre, pois há número pequeno de professores advogados.

A sobrevivência é fenômeno esquisito. Vira-se uma espécie de espectador, vendo-se o rapazelho, antes aluno, amadurecer, branquear os cabelos, tornar-se doutor e ocupar espaços vazios. É, concomitantemente, motivo de contentamento e um pouco de melancolia, porque a chegança da juventude faz lembrar os idos.

Li, dias atrás, uma biografia de Einstein. Este dizia que o conceito de tempo é dado por nós, porque a passagem, em si, não existe. O ontem pode ser hoje e o hoje pode ser o amanhã, tramitando os três aspectos do nosso cérebro. De qualquer forma, sendo ou não assim, uniram-se na minha memória duas imagens de Fábio Prieto de Souza, um jovenzinho quando meu aluno em mil novecentos e nada e ontem aclamado Presidente do Tribunal Regional Federal da 3ª Região. Coisa boa. O desembargador Fábio Prieto tem qualidades excelsas para o exercício do cargo, vencendo a eleição por ampla maioria. Do nosso lado, gostamos dele.

Fui lá para abraçá-lo, sendo distinguido pela reserva de lugar entre os familiares do presidente. Havia muita gente, de ministros do Superior Tribunal de Justiça (Sebastião Reis Júnior) a generais estrelados e graduados na marinha, aquelas fardas imaculadas despontando no meio da multidão. Aos 78 anos de idade, embora lépido, quis deixar para depois os parabéns. Dou-os em vídeo. Fica melhor e o abraço se pereniza.

O presidente do Tribunal Regional Federal da 3ª região, ex-aluno e, portanto, enlaçado naquilo que já foi, há de perceber que o professor fala com a bengala nas mãos, assemelhando-se, embora mais elegante, ao cajado dos patriarcas, porque, seguramente, é dos mais antigos criminalistas de São Paulo. Pode dizer ao acarinhado desembargador Fábio Prieto, então, que a OAB reivindica há anos assento para os advogados junto à tribuna, porque a prerrogativa consta de Lei Federal e é fruto de desobediência de grande parte dos tribunais do país. Dia desses, em sustentação oral, este velho flibusteiro da advocacia criminal há de reivindicar, em pé na tribuna, devidamente becado, o assento a que tem direito, portando o bastão, do qual não precisa, repita-se, mas que é simbólico sim, herdado do avô, rábula em Muzambinho, demonstrando aos passantes a masculinidade da advocacia. Dentro de tal contexto, vão os parabéns do vetusto mestre e segue o insistente pedido de deferimento à pretensão não individualizada, mas representativa da voz de 300 mil advogados paulistas. Havemos de aplaudi-lo, depois de tal ato, muito mais do que o fizemos na posse, mesmo entusiasmados. No mais, boa sorte. Vai precisar.

Deixe um comentário, se quiser.

E