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Um crime universal

* Paulo Sérgio Leite Fernandes
Um crime universal
(Ou ” A Rosa de Hiroshima”)

 


A humanidade sofre, de vez em quando, as resultantes de hecatombes geradas pela própria natureza ou de eventos produzidos direta ou indiretamente por condutas dos próprios homens. Procurem-se exemplos recentes de uma ou de outra espécie: prefira-se, a título de amostragem, quanto à primeira, o tsunami que horrorizou o sudeste asiático, constituindo, segundo alguns, demonstração da raiva das divindades; quanto ao segundo modelo, haja predileção por Chernobyl, não só pela extensão dos efeitos do veneno radioativo mas também porque aquela substância mefítica ainda está viva, e viva estará, seguramente, durante uns dez mil anos, forçando as paredes dos milhões de toneladas de concreto que pretendem servir, se não de pano mortuário, ao menos de pacificador da violência posta nas suas entranhas. Tocante ao terremoto gerador do tsunami, ainda se poderia crer ter sido produzido somente pelas forças da natureza. Chernobyl, entretanto, é criação do homem. Curiosamente, as cercanias daquela usina diabólica ainda são habitadas. Relembre-se Pompéia: o vulcão despejou suas lavas e cinzas sobre a cidade, soterrando-a até que os historiadores removessem toneladas e toneladas de terra, trazendo as ruínas de volta. É importante notar que o vulcão continua ali, apenas adormecido, havendo medidores aptos à comprovação de uma potencialidade qualquer. O povo está perto. Nasce, vive, faz filhos, diverte-se e morre por causas naturais, é certo, mas desconhecendo a fuligem negra misturada ocasionalmente no ar circundante. Não se fale, agora, no outro vulcão, este islandês, impregnando os motores dos aviões e empesteando a natureza.

            Cuidando-se do resultado de ações humanas, pense-se nos estarrecedores litros de petróleo bruto vazando do subsolo marinho no Golfo do México. Aquilo, realmente, é fonte desmesurada de riqueza, porque instrui a quase totalidade da maquinaria moderna, a exemplo do carvão, ao tempo da predominância daquele material. Perdeu-se o controle da ebulição. O óleo se espraia sobre e sob as águas, em proporções satânicas. Tenta-se tampar o vômito enegrecido, com sucesso mínimo, significando impossibilidade plena de contenção. Vão-se os peixes, os crustáceos, e se vai também parte considerabilíssima da vida marinha, havendo risco muito sério de poluição de praias e terras verdejantes.

            No entremeio, os Estados Unidos da América do Norte confessam, para contagem pública, que possuem mil quatrocentas e poucas ogivas nucleares em estoque. Países outros detêm volume parecido. A França mantém em atividade mais de trinta usinas atômicas. Há países emergentes providenciando o enriquecimento de urânio para a produção “pacífica” de energia atômica. O Brasil fez funcionar duas delas (Angra I e Angra II). Já houve, anos atrás, muito séria discussão sobre a segurança daquelas edificações. Quem tiver boa memória há de se recordar de notícias sobre tais características, envolvendo inclusive a “Westinghouse”. O cronista, quando moço, investiu contra o governo Geisel, em batalha de pigmeu, pois a ditadura pretendia construir uma usina atômica em Itanhaém. Não se levou adiante a idéia. Menos mal…

            O perigo já passou, ou melhor, já se estabilizou no inconsciente coletivo. O povo de Angra convive com os monstros, deslembrando a própria premonição do poeta Vinicius de Moraes (Rosa de Hiroshima), – cantada por Ney Matogrosso:

 Pensem nas crianças
Mudas telepáticas
Pensem nas meninas
Cegas inexatas
Pensem nas mulheres
Rotas alteradas
Pensem nas feridas
Como rosas cálidas
Mas, oh, não se esqueçam
Da rosa da rosa
Da rosa de Hiroshima
A rosa hereditária
A rosa radioativa
Estúpida e inválida
A rosa com cirrose
A anti-rosa atômica
Sem cor sem perfume
Sem rosa, sem nada

 http://letras.terra.com.br/ney-matogrosso/47735/

Depois disso tudo, é só esperar o que vem por aí. Decididamente, o futuro não parece bom…

* Advogado criminalista em São Paulo há cinqüenta anos.

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