Home » Ponto Final » O scanner corporal e as vísceras dos brasileiros

O scanner corporal e as vísceras dos brasileiros


* Paulo Sérgio Leite Fernandes
O scanner corporal e as vísceras dos brasileiros


 

 Surge nos jornais de hoje, 7 de maio de 2010, a notícia de que serão implantados, no mínimo em quatro aeroportos brasileiros, aparelhos denominados “body scanners”, exibidos à Polícia Federal após doação pela Embaixada dos Estados Unidos da América. A aparelhagem serve à detecção de drogas dentro do corpo, além de identificar acessórios e objetos aptos à produção de danos ou destruição de aeronaves em voo ou não. Segundo ainda os jornais, a Ordem dos Advogados do Rio de Janeiro coonesta a iniciativa, havendo um Procurador Geral daquela seccional afirmando que, na hipótese, o interesse social supera a prerrogativa individual de manutenção da privacidade e intimidade. Argumenta-se, também, no sentido de ser o sistema menos invasivo, pois a técnica tradicional implica manipulação física do suspeito – ou suspeita –, circunstância esta muito mais aviltante. Acentua-se, também, que o sistema funciona mais ou menos como uma radiografia, espelhando somente ossos, órgãos, objetos e o contorno do corpo.

 Explicada assim, a técnica pode parecer desimportante no sentido de violação da privacidade. O episódio, que tem inclusive aspectos cômicos e também dramáticos, lembra um fato constante do anedotário dos serviços de radiologia, parecendo ter uma dose qualquer de realidade. Um paciente se apaixonara por uma enfermeira de um serviço radiológico, não sendo atendido nas suas pretensões. Arranjou meio de tirar uma radiografia dos pulmões, mas antes mandou que escrevessem com tiras de esparadrapo, nas costas, a frase: “ – Eu te amo”. Era o tempo em que as chapas ou os filmes se faziam muito grandes. Revelados, os negativos espelharam aquela declaração de amor. Deu em casamento.

 Ironia à margem, existe cada vez mais a percepção de que o coletivo escraviza os direitos e as garantias individuais, valendo dizer que o medo do denominado terrorismo leva à subversão de valores havidos como classicamente estruturados em proteção das intimidades. Setores voltados tradicionalmente à defesa de tais pressupostos estão sendo contaminados, convindo afirmar, a título de exemplo, que a própria Ordem dos Advogados do Rio de Janeiro parece estar coonestando a possibilidade de exploração das vísceras dos e das brasileiras. De outra parte, é bom fixar que a revista física por manipulação só é feita, no momento, quando há suspeita sobre determinada criatura ou comportamento extravagante. O aparelho “body scanner” é globalmente utilizado. Portanto, dentro do experimento, todos são suspeitos.

            Vêm acontecendo fatos com os quais os antigos precisam acostumar-se, embora resistindo até o último grau: o mundo mudou. Tradicionais defensoras das liberdades individuais e de prerrogativas básicas ligadas à liberdade do cidadão de ir, vir e ficar, há entidades transformando-se em adeptas da redução de tais prerrogativas, auxiliando, portanto, ameaça cada vez maior a preceitos que, antes de objetivados na Constituição, integram a própria ideologia do processo democrático. Dentro da particularidade, a Ordem dos Advogados do Brasil precisa tomar muito cuidado porque, afastando-se do obstáculo clássico que sempre colocou à redução das possibilidades de um cidadão se opor ao Estado, começa a passar para o outro lado, desnutrindo então a característica que sempre vestiu de defensora do indivíduo contra os assédios da pressão social. Vale a reflexão até num caráter axiomático, não sendo importante saber se a postura individualista tem ou não condição de ser vencedora. A resistência faz parte do jogo, ou do conflito entre o cidadão e o poder. Cuida-se, aqui, de raciocínio perdido, quiçá, no romantismo ortodoxo de tempos já passados, mas foram os defensores da cidadania, certamente, os grandes opositores da entronização do autoritarismo abjeto na história do mundo. O “body scanner”, já se vê, é apenas um incidente na problemática maior. Dentro em pouco, se as lideranças da OAB não se cuidarem, passarão a cooptar a violação indiscriminada dos lares e a interceptação telefônica abusiva, características estas quase rotineiras na aplicação do Direito Processual Penal em vigor.

* Advogado criminalista em São Paulo há cinqüenta anos.

2 Comentários sobre “O scanner corporal e as vísceras dos brasileiros”

  1. PSLF disse:

    Comentário para esse vídeo postado no youtube por maribelfioriik:

    isso é uma vergonha,cade a competencia da policia federal…

  2. PSLF disse:

    Comentário para esse vídeo postado no youtube vídeo por Kataclismas:

    Literalmente me mijei de rir com as cronicas.

    Muito bom

    Quanto mais se acredita na idoneidade da ONU, mais subliminarmente o Brasil se torna escravo.

Deixe um comentário, se quiser.

E