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A CIA torturou bastante (Ou “Perfume de Mulher”)*

Paulo Sérgio Leite Fernandes

Os jornais de hoje, 02 de abril de 2014, estampam nas capas, com relevo para o “Estadão”, comentários, com fotografias, de torturas executadas pela CIA norte-americana em iraquianos, visando a descoberta de segredos variados, inclusive aqueles correspondentes à localização de Bin Laden, já consumada e terminando na execução de um dos seres mais perseguidos do mundo. As fotos mostram prisioneiros nus, sacos de plástico nas cabeças, dois voltados para o fotógrafo e outros dois sentados às costas. O texto fala em simulação de afogamentos e mentiras outras influindo na mente dos encapuzados.

As notícias apenas repetem outras, já antigas, concernentes a soldados “yankees” ameaçando prisioneiros com cães, sendo os reclusos algemados e privados da possibilidade de ver o que estava a acontecer. As imagens ganham notoriedade, no Brasil, em razão dos cinquenta anos do golpe que depôs João Goulart, nos idos de 1964. Aqui no país a Comissão da Verdade multifacetada, com relevo para a nacional, descobriu série grande de atos de violência praticados por esbirros representantes do poder extravagantemente mantido pelos militares. No fim das contas, lá ou aqui, as sevícias eram e são assemelhadas, porque o ser humano raramente é inventivo enquanto marca a carne ou a alma dos semelhantes. Na verdade, é mais fácil aos carrascos a imitação de castigos físicos que já deram resultado, notando-se algumas particularidades realçadas em livro posto a público por Ana Maria Babette Bajer Fernandes (Aspectos Jurídico-Penais da Tortura). Há, claro, algumas peculiaridades. Por exemplo, adeptos da religião muçulmana têm horror a carne de porco. A ingestão de tal alimento pode privá-los do reino dos céus. Assim, a ameaça com um “lombinho” pode produzir mais efeito que o pau-de-arara. Acontece, entretanto, que essas proibições vindas no Alcorão tinham razões ligadas à Saúde Pública, sendo envelopadas como pecado grave. Na antiguidade e até hoje a carne vinda desses animais pode conter, se mal-cozida, vermes cobiçosos de se abrigarem no cérebro humano, proliferando alguns e morrendo outros, cristalizados. Mortos os bichos, é até possível ao homem – ou mulher – conviver com os restos, havendo danos significativos ou nenhum. O problema surge quando aqueles seres não sucumbem. Daí, o impregnado pode enlouquecer.

Vale o mesmo, na religião católica, para a monogamia. Deus é extremamente sábio. Fez o homem, extraiu Eva da costela de Adão, possibilitou o nascimento de Caim e Abel e assim o mundo foi sendo povoado. Daí, segundo as Escrituras, o patriarca Moisés subiu no topo de uma montanha e, após muita reflexão, desceu com os “Dez Mandamentos”. O IX: “Não cobiçarás a mulher do próximo”. Moisés, com toda sabedoria, não deve ter pensado na recíproca, ou seja: “Não cobiçarás o homem da próxima”. E não pensou, também, na modernização concernente à equalização dos sexos, gerando-se então extrema confusão, pois hoje, com o casamento entre pessoas do mesmo sexo, a coisa precisa se resolver em interpretação extensiva. E agora? “Mulher, não cobiçarás a outra da próxima”, ou então “Homem, não cobiçarás o homem do próximo”. Isso fica complicado, absorvendo-se maior complexidade quando se fala em relacionamento poli-afetivo (núcleo familiar envolvendo relacionamento sexual entre mais de dois adultos, sem distinção de sexo). 

O Papa Francisco, nessa altura dos acontecimentos, deve estar coçando os cabelos que lhe restam na calva sacrossanta. Enquanto orando em genuflexão deve estar monologando aquele tango de Gardel:

                                                                   Por Una Cabeza:

“(…) Por una cabeza

                                                                  Metéjon de un día

                                                                  De aquella coqueta

                                                                  Y risueña mujer

                                                                Que al jurar sonriendo

El amor que está mintiendo

Quema en una hoguera

Todo mi querer (…)”

Tudo isso vem para dizer que a monogamia pregada pelo Vaticano tinha e tem fundamento em saúde pública. O respeito entre homem e mulher, sem desvios para outras camas, preserva a possível contração de moléstias venéreas que, diga-se de passagem, estão voltando com muita força, com realce para a “Petite Parisiense”. Isso sem falar no HIV.

Às vezes o cronista se embola um pouco no texto porque começa com a CIA, passa pelo lombo de suínos, prossegue no decálogo, enviesa no papa argentino, dá uma paradinha em Bin Laden e corre o sério risco de se encantar com o belíssimo filme “Perfume de Mulher”, com Al Pacino no papel central (A essência, seguramente, era o “`Arpège”). De repente, essas estradas vicinais surgem para livrar o leitor da coisa horrível que os gringos fizeram com os iraquianos e nós com os nossos, durante vinte anos, no mínimo. Vale a pena a distração.

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