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Ainda sobre a violência

* Paulo Sérgio Leite Fernandes
Ainda sobre a violência 

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               A imprensa, nisto compreendidos jornais, rádio, televisão e agora a internet, sabe ser paradoxal. A consulta a qualquer edição dos matutinos brasileiros, e mesmo dos vespertinos, permite conclusão estranha: enquanto a imprensa brada por maior segurança, encarrega-se de difundir a violência. . Não se fale especificamente da televisão. A fuga espetacular dos condenados da Penitenciária Antonio Parada Neto é exemplo típico (pobre Parada, meu companheiro de Conselho Penitenciário e deu nome a um presídio). Parece o caso já citado de um ilustre médico legista de São Paulo: aceitava ser nome de rua, atalho, estrada vicinal e até de viaduto, mas tinha horror de patrocinar identificação de penitenciária. Virou nome de uma …

         Outro dia, às 18,00 horas (era um sábado), vi um filme terrível. Uns americanos do norte (só podiam ser do norte) enfiavam vermes gigantescos no dorso das criaturas. Achavam que era Jesus Cristo feito matéria. Meu neto viu aquilo e acordou chorando na madrugada. Falava no bicho. Mas aquilo era só aperitivo, porque as “Globo” da vida, os “SBT”, a “Record” e outras se especializaram nisso. Entretanto, pedem mais segurança, criticando os infelizes que aceitam cargos nas secretarias de mesmo nome.

         Na verdade, o cidadão, hoje, degusta sangue e violência. Acorda com homicídios e dorme com eles. Não é mais como tempo de Kirk Douglas (o moço) e Burt Lancaster (o velho). Aliás, numa das minhas viagens a Portugal, vinte anos atrás, um filme dos dois, assistido  no hotel,  só me fazia rolar no chão de rir. Kirk, punhos fechados, gritava para Burt, na dublagem: “– Te cuida que te dou um teco!” E Burt respondia: “– Oh gajo, tu não tens culhões pra mim”!

         Hoje é tudo diferente. Nas exibições   da “Globo”, o sangue sai em cascata de dentro daquele símbolo aborrecido. “Plim Plim”, “Plim Plim”… a sala fica toda pintalgada de vermelho. Deixo de lado os programas religiosos.   Aí também há problemas, pois somos ameaçados com o fogo dos infernos. Aquilo deve queimar como  desgraça. E querem que a violência se reduza.

          O pior é que os filmes inspiram os próprios facínoras. Disse um dos fugitivos da penitenciária “Parada Neto” ter colhido inspiração na fuga de “Escadinha”. Coisa alguma. Inspirou-se numa cena de Charles Bronson (o que não envelhece. Parece a borboleta de “A Ilha”. Quem não leu, leia. Não conto o enredo).

         A violência, agora, é tema eleitoral. Geraldinho (o Alckimin) mandou comprar um monte de viaturas e pintou outras. Genoíno me decepcionou. Quer prisão perpétua. O outro andou vendo demais novela da “Globo”. Fala em “lapidação” mas não sabe que em Marrocos só mulher  leva pedrada. Homem não. No Irã é diferente. Estrangeiro não pode beliscar mulher. Se tiver sorte , morre antes de ser castrado.

         Como vêem, critico os enraivecidos e acabo falando em sangue, apedrejamento e castigos cruéis. É o “karma” do ser humano. Não mudamos nada. Somos piores que os primitivos. Em última reflexão, vi, depois da chuva, uma aranha na respectiva teia. A infeliz mosca não enxergou o obstáculo. Enredou-se. A aranha sacudiu o traseiro, foi lá e envelopou a vítima. Ia comê-la no almoço (se é que aranha tem hora para almoçar). Mas não torturou o inseto. Os seres inferiores não ferem nem supliciam. Matam quando têm fome. Só. Portanto, os arautos da segurança pública precisam saber que a sede principal da criminalidade, a geratriz, o cerne, é a fome. É trocar as viaturas por saúde, alimento, educação, desfavelamento e, enfim, habitação. Até lá, no mínimo, valeria a inspiração da aranha: só matar pra comer. Eis a questão.

* Advogado criminalista em São Paulo e presidente, no Conselho Federal da OAB, da Comissão Nacional de Defesa das Prerrogativas do Advogado.

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