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Primeira das sete pragas do Egito

* Paulo Sérgio Leite Fernandes
Primeira das sete pragas do Egito
(Ou Ainda faltam seis)
 

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               Eu gostava do José Gregori. Fazia algumas bobagens – todos nós fazemos –, pois era amigo íntimo de Fernando I e Único, rei do Brasil. Amizades antigas desculpam muita coisa. Assim, os desencantos de Gregori saem nas águas, expressão, aliás, lusitana, logo agora que o ex-Ministro da Justiça vai ao Tejo, a ver as raparigas amassando uvas, descalças dentro dos tonéis. Eta, Zé Gregori, já tenho saudade de você. Nem bem arrumou as malas, Fernando I e Único, em soturno acordo e ouvindo a voz das pitonisas, convoca Aloysio Nunes Ferreira, antigo militante das oposições à Ditadura. Um libertário, certamente (é o que se diz). Não sei, entretanto, qual a razão de curioso fenômeno que contagia algumas lideranças democráticas. Mal o gajo senta o traseiro no trono e já começa a cortejar as premissas do poder, seguindo os bafejos do vento restritivo das garantias dos direitos assegurados à resistência. Uma justificativa para tal conduta seria, quem sabe, a pesquisa de opinião. Matam-se, em São Paulo, entre 70 e 100 infelizes semanalmente, com predominância nos fins de semana. Ali, sem terem o que fazer de melhor, ladrões matam gente honesta, marido mata mulher, mulher mata marido e depois se enforca na cela podre de um Distrito Policial, marginal seqüestra prefeito, a polícia também capricha pra não ficar por baixo, um antigo secretário da segurança se candidata a deputado (afinal, há quem o queira), um adepto da violência estrita pretende a governança, todos criticam a violência mas todos, embevecidos, se comprazem enquanto a vêem desfilando na televisão. Assim, o novo Ministro da Justiça resolve, também, partir para a agressão, a exemplo de Genoíno, deputado federal que eu admirava quando assistia aos programas da Câmara. O moço pegou o cavalo andando e escabuja, ele que era um defensor das liberdades, sobre a sela da prisão perpétua. Não dá mais para entender.

           Maluf faz isso. Vá lá. Mas vocês dois, Aloysio e Genoíno, deixando-se seduzir pela “Dama de Ferro” (violência contra violência), é incompreensível para quem tem a idade de vocês e andou pelos labirintos do golpe de estado de 64. O que houve com os dois? E vem o novo Ministro da Justiça, agora, ele que é advogado (ou foi) ou que já usou, em priscas eras, o sudário negro que protege a defesa dos atos de arbítrio, vem ele, repita-se, preconizando que os advogados sejam revistados à entrada nos presídios, como se fossem responsáveis pelas mazelas da nação. Não sei, Aloysio, se dou risada ou se choro perante essa proposta ridícula. Assemelha-se a afirmar que os médicos são responsáveis pela pandemia aidética ou pela peste bubônica, ou que os veterinários são os difusores da leptospirose ou que vocês, Fernando I e Único, mais seus ministros todos, inclusive o da Justiça, devem responder pelo aumento da criminalidade no país. É burrice! Na verdade, vocês precisam perder a mania de atirar sobre a atividade defensiva todas as infelicidades recolhidas do conflito entre o Estado e o cidadão. É como acontece com o Gilmar, hoje Advogado-Geral, amanhã Ministro do Supremo. Na ânsia de patrocinar os projetos eleiçoeiros do Executivo, avilta a advocacia, mal sabendo vocês todos que hoje, em razão até mesmo de falta de agressividade, os advogados recebem todas as humilhações possíveis, na polícia, na justiça, no ministério público, nos tribunais e nos quartéis, avistando-se com os clientes através  de grades de celas imundas e sem a possibilidade de contato físico com os mesmos. Pior do que isso, Ministro da Justiça, é a proposta de restrição da atividade sexual dos presos renitentes ou reagentes. Ou não sabe, você que ocupou agora a poltrona do poder, que os recolhidos nos pestilentos distritos policiais chegam ao êxtase, às vezes, olhando nos olhos a mulher, a namorada, ou mesmo a meretriz alugada, sem chegança corporal alguma? Já vi isso, Aloysio. Você não viu. Pare, portanto, você que parece ter sido companheiro das velhas lutas, de vender aquilo que entende ser a vontade do povo. O povo, meu caro, tem três vontades primordiais: amar, comer e dormir. Faça força para não se esquecer disso. O recluso não ama, não dorme e não come. Já vê que chove no molhado. Quanto ao advogado, lembre-se de que é – ou foi – um deles. A família o espera na volta.      

* Advogado criminalista em São Paulo e presidente, no Conselho Federal da OAB, da Comissão Nacional de Defesa das Prerrogativas do Advogado.

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