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Zé Celso, o Teatro Oficina, Censura a Artistas e Scaramouche

Paulo Sérgio Leite Fernandes

Surge nos jornais, em pequenas notas, nesta quarta-feira, 5 de novembro de 2014, a noticia de que o diretor teatral José Celso Martinez Corrêa está sendo processado criminalmente porque o Ministério Público do Estado de São Paulo acusa membros da “Associação Teatro Oficina” por cometimento de crime contra paz pública. Cuidando-se de infração que admite transação penal, o promotor público oferece conciliação a Zé Celso, desde que ele, mais alguns, quem sabe, se comprometam a pagar um salário mínimo a uma entidade qualquer, obtendo-se assim a extinção da punibilidade. José Celso diz não. Foi acusado por um padre, Luiz Carlos Lodi da Cruz, porque os atores, segundo consta, teriam despedaçado um boneco simbolizando o capitalismo. Acentua-se que o fantoche representava o Papa Bento XVI.

A ação penal corre em segredo de justiça, dificultando-se análise mais científica.

Jose Celso Martinez Corrêa disse que o grupo não se escondeu nas coxias durante a apresentação para incitar o povo à violência. “Ninguém se esconde dentro da arte”, afirma o conhecido e extravagante diretor (não há diretores ortodoxos).

A informação é extremamente curiosa. Além de divulgar atividade censória do Ministério Público do Estado de São Paulo, atribui aos atores comportamento incitador à perda da tranquilidade pública. Há nisso alguns estímulos à reflexão do velho cronista: se peças de teatro forem tomadas como incitação a perda da tranquilidade pública, haverá nas mesmas o enfraquecimento das premissas morais prevalecentes, da ética, do comportamento dos seres humanos, da moralidade exigível na exposição dos corpos à visitação dos olhares concentrados na platéia. É bom que o Ministério Público se disponha a colocar um “GAECO” especial para o trucidamento dos panos que se abrem e fecham diariamente no país inteiro, uma espécie de BOPE censório, um “fahrenheit eight” na praça principal dos burgos, relembrando-se inclusive, que Adolph Hittler mandou queimar literatura produzida por Sigmund Freud, um dos maiores gênios que o mundo já produziu. O Ministério Público existe para outras coisas, usando a vassoura na limpeza da monstruosa corrupção assolando o Brasil no entremeio do governo que ainda não passou. Ou então, para a luta empedernida contra os traficantes de entorpecentes internacionais, pedófilos e quejandos. Metendo-se o persecutor no meio das “troupes” que vão aos solavancos para o interior do país, lembra ao cronista livro que ainda está em sua cabeceira, ficando, desde os catorze anos, sobre texto bíblico em encadernação bem antiga, lido o último de vez em quando para a purgação de um ou outro pecado maior. O escriba fala de “Scaramouche”, o Fazedor de Reis, obra de capa-e-espada produzida por Rafael Sabatini. Poucos o leem hoje, mas o personagem principal é André Louis, filho bastardo de um nobre da corte francesa e revolucionário certamente, escondendo-se do Procurador Geral de França sob a máscara de um parlapatão. Veja-se a sintonia: o espadachim, no meio da revolução francesa, foge do chefe do Ministério Público do Rei. Aqui, no século XXI, no Brasil, o Promotor de Justiça persegue Scaramouche, este último personificado por Zé Celso. Esquisitamente, no romance de Sabatini, o Marquês de “La Tour D’Azir” mata o padre que se atreveu a duelar com ele. No processo movido a Zé Celso, o sacerdote Lodi da Cruz quis defenestrá-lo. Que loucura mansa! Convém consulta ao Procurador Geral de Justiça do Estado de São Paulo, Elias Rosa, a ver se ele quer reeditar o célebre folhetim. Convido-os a lerem o livro. Se não o encontrarem em algum sebo, empresto-lhes meu exemplar, desde que o devolvam a tempo certo.

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