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Prêmio Nobel da Paz

* Paulo Sérgio Leite Fernandes
Prêmio Nobel da Paz
 

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               Hoje, 22 de fevereiro de 2002,  os jornais divulgam que Bush e Blair , respectivamente Presidente e Primeiro Ministro dos Estados Unidos da América do Norte e do Reino Unido,  são candidatos ao “Nobel da Paz”.  O prêmio, conforme o nome indica,  agracia cidadãos notoriamente conhecidos  pelos esforços desenvolvidos em favor da pacificação ou, até mesmo, da suavização da tendência do ser humano a destruir seus semelhantes. Não há a mínima semelhança, creia-se, entre  as condutas de Bush, Blair e Martin Luther King, Jr.

         Não conheço as peculiaridades da formalização das candidaturas. Consta que o Comitê se incumbe de examinar personalidades recomendadas por organizações internacionais ou mesmo por nações (Embaixadas, etc),  havendo, obviamente,  as pressões costumeiras,  não ausentes, sequer, na eleição  do papa ou canonizações. Realmente, um ou outro país precisa, em determinada época, de um santo particular, nascido , criado ou morto em território nacional. Esforço bem dirigido pode, eventualmente,  santificar, para uso interno ou externo, algum religioso de bom tamanho. Se o expediente vale para as almas imaculadas,  não pode ser desprezado quando se cuida do Presidente da América do Norte ou do Primeiro Ministro da Inglaterra. Não se tem notícia da realidade de ambas as candidaturas, mas se os dois  tiverem juízo, hão de colocar-se à margem da competição velada. A destruição das torres sagradas, em Nova York, gerou reação extremamente irada de Bush. Recontou em dobro (ou triplamente) o número de vítimas americanas. Dedicação um pouco maior teria transformado o Afeganistão num buraco só, tantas foram as toneladas de bombas lançadas naquele país em retorsão. Blair, de outra parte, mandou afiar as baionetas dos soldados ingleses, pondo-as  a serviço  da morte. Sobra, no fim das contas, uma indagação  curiosa: deve o prêmio Nobel da paz  ser concedido  a quem pratica magistralmente o “olho por olho”? Centenas de homens, mulheres e crianças tiveram seus corpos dilacerados pelos bombardeios americanos. A maioria morreu. Há, mancando no Afeganistão, muitos sobreviventes desgraçados pelos estilhaços ou reflexos indiretos dos petardos. Bush vai fundo nisso. E Blair só não chega ao extremo porque não o deixaram atravessar o rubicão. Portanto, as notícias das candidaturas só podem ser desinformação. Ou piada sem graça. O Prêmio Nobel  da Paz  já teve sua credibilidade discutida. Houve uma ou outra decisão contestada, mas os  pretendentes  tinham, todos, currículos no mínimo aceitáveis. Tocante a  Bush e Blair, é remotíssima a escolha. Poderia ser assistida por enorme platéia dos mutilados pela terrível vingança de “Tio Sam”, todos em traje de gala, as  mangas  e pernas das vestimentas  enroladas no vazio  dos membros amputados. Ficaria  bem.  É esperar para ver.    

* Advogado criminalista em São Paulo há quarenta e dois anos. Esta crônica é personalíssima. Retiro meus títulos.

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