Home » Ponto Final » Cortadores de Cabeças

Cortadores de Cabeças

* Paulo Sérgio Leite Fernandes
Cortadores de Cabeças
(Ou “Cultura Moderna da Violência”)
     

________________________________________________________________________________________

               Um jornalista norte-americano foi bisbilhotar no Paquistão. Queria descobrir   ligações espúrias entre o terrorismo internacional e alguns  ocidentais.      Seqüestraram-no. Mantiveram-no encarcerado num lugar qualquer durante muitos e muitos dias.  Pretendiam trocá-lo por companheiros capturados. O governo americano, finalmente, admitiu que o repórter estava morto. Uma cena dantesca, filmada. mostrava  o moço sendo degolado depois de se dizer judeu. Mais adiante, o cadáver teria sido decapitado  à moda dos   frangos. O filme, enviado a um jornalista paquistanês, foi reconhecido, finalmente. Era  real. 

          A decapitação não é privilégio daquele país. A história está repleta de cenas assemelhadas, recolhidas na mais remota antigüidade. Cerimônias terríveis são  relatadas por sobreviventes   visitadores  de tribos especializadas em imolações afins. Aliás, Marcos Cláudio Acquaviva, jurista dos mais eméritos que o Brasil tem, escreveu livro sobre   rituais encontradiços na Colômbia. Conta, à margem dessas coisas horríveis, espetáculos extravagantes dentro da anomalia.  Por exemplo:  a família dos mortos ilustres era sacrificada concomitantemente  (Primeiro iam as mulheres, para desespero das nossas feministas).

         A decapitação tem  significados múltiplos. É forma de humilhar, pois desidentifica o cadáver. Facilita o transporte do   troféu. E reduz o mutilado à condição de animal inferior, impedindo, segundo crendice, o retorno da alma para assombrar o algoz. Havia povos  rústicos, a par disso,   que detinham a técnica de mumificação e redução das cabeças de inimigos mortos em combate . Levavam-nas amarradas à cinta. 

         Pensava-se, entretanto, que o costume havia sido relegado às calendas. Engano profundo, porque  há alguns meses    apareceu a notícia de guerrilheiros das bandas do Paquistão  exibindo, penduradas pelos cabelos, cabeças de antagonistas degolados  a facão de mato.

         Dir-se-á que isso não acontece na América Latina. É mentira. Ainda  se degola um ou outro por aí. E não   temos, no Brasil, o privilégio da repulsa a tal comportamento.  Já fizemos isso oficialmente, por sentença,  com Tiradentes, embora lançando a culpa aos portugueses. Espetamos num poste  a extremidade superior do mártir da Inconfidência. O resto foi pendurado à  margem das  estradas Aliás, naquela época., escaparam os moços de boa estirpe, mandados ao exterior para degustar bons vinhos  até que as coisas esfriassem. Afirma-se que a manobra foi imitada há poucos anos. 

         Noticiam os jornais, após  a última rebelião em presídios organizada por um comando central da delinqüência, cerimônia concretizada numa cela de  penitenciária qualquer :paredes pintadas de preto, inscrições dramáticas postas no teto, tudo iluminado à luz de velas,   mistura tenebrosa de vodu, cachaça, álcool de batata, casca de frutas, maconha e drogas diversas. Vapt! Vapt! Vapt!  Vai-se a cabeça do infeliz. O rito exibe ligação atávica  com os selvagens de antanho, guerrilheiros paquistaneses, nativos   colombianos e  presídios  brasileiros,  sem perda de atenção para certas execuções consumadas  à  beira das estradas vicinais. É tudo igual?   Não, é pior. Hoje, mandamos homens ao espaço. Usamos computadores   maravilhosos. Clonamos bichos     ( e gente  também,   tenham certeza). Colocamos o dedo nas chagas de Cristo, tentando decifrar o mistério da criação. Mas continuamos cortando cabeças aqui e ali, cooperando, inclusive, para que as cortem quando  permitimos aos marginais explicação consistente na  repulsa aos maus-tratos  que lhes dispensamos nas prisões…

         O repórter decapitado é,  no pavor em que vivemos, apenas uma cabeça a mais.  O presidente dos Estados Unidos da América do Norte faz melhor. Não precisou recolher restos. Triturou-os,  misturados nas  montanhas do Afeganistão.  À  sua moda, é   caçador de cabeças. Pragmático, pulveriza-as, enquanto coopera decididamente para o término da recessão e o reequilíbrio da economia interna  americana.

* Advogado criminalista em São Paulo há quarenta e dois anos e presidente, no Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil, da Comissão Nacional de Defesa das Prerrogativas do Advogado.

Deixe um comentário, se quiser.

E