Certa vez, lá pelos idos de um mil novecentos e oitenta e poucos, a OAB paulista
aproveitou a visita de Hebe Bonafini (Relembre-se a canção
"Las Locas de Plaza de Mayo" ) para abrir, em
cerimônia oficial, uma espécie de "livro negro" contendo a relação dos
mortos e desaparecidos no entremeio do golpe de 1964. O documento ainda existe.
Está nos arquivos da Corporação ou nas gavetas de alguém. Lembram-se daquilo,
obviamente, os sobreviventes. Uma ou outra noticia posta, agora já amarelada, nos jornais
da época serve, igualmente, de testemunho pouco importante do evento.
A aposição do nome dos mortos e desaparecidos no livro negro da OAB constituía, a
bem-dizer, um ato simbólico. Lembrava ao governo que a investigação sobre o destino de
cada qual seria uma demonstração de sinceridade na redemocratização do pais. Daquela
data a esta, na Argentina, "Las Madres" continuam suas passeatas em torno da
Casa Rosada. Recordo-me dos primeiros versos da canção que compusemos
para elas: " -Só vestem com negro. Os rostos marcados por rugas profundas, os olhos
brilhando de ódio e dor, contemplam caladas, doridas, mordidas, o templo rosado
plantado na praça." As madres não desistem. Bateram como
água mole em pedra dura (Tanto bate até que fura). Obtiveram, então, a revogação da
Lei da Anistia. Os portenhos, a seguir, procuram afanosamente os carrascos daquele
tempo, encontrando um ou outro servindo de bode expiatório ou exemplo da
impossibilidade de perdão.
O Brasil é diferente. Anistiamos executores e terroristas numa conduta politicamente
adequada ms repleta de hipocrisia, pois não se anistia quem jamais foi processado. Com
efeito, somente os perseguidos pelo regime ditatorial foram submetidos a processo.
Tinha o sistema, portanto, base para aplicar unilateralmente a legislação nova.
Comentou-se, ali, o paradoxo vertente: na medida em que qualquer pretensão
no sentido de anistiar precisaria ser jurisdicionalizada. Aplicando-se a decisão
judicial a um individuo ou grupo de pessoas, nem um só carrasco teria sido
objeto do perdão em sentido lato, pois não havia torturador
processado. O intento do governo, portanto, foi risível, adaptando-se
exclusivamente aos rebeldes, aos exilados, aos presos e aos rebeldes em
geral, todos acionados.
Daquele pedaço tenebroso da história da pátria restaram poucas mães, pais e irmãos
dos mortos e / ou desaparecidos no Araguaia (não só lá, com certeza). A
obstinação dessas famílias, agrupadas em associação incansável, constitui um
prego no sapato do presidente da República e sectários. Não se pensem os
observadores que sou inimigo deles. Votei no gajo, a título experimental. Verifico,
entretanto, a continuação de fenômeno mundial: não vale a pena cutucar vespeiro. O
governo fez seus acordos, expressos ou tácitos. Presente e passado convivem da melhor
forma possível. Razoável porção de egressos da ditadura, uns e outros em decadência
física mas ainda ativos, ocupam postos relevantes na Câmara e no Senado. Entrecruzam
abraços e permutam posições, porque os projetos do novo Estado precisam ser
aprovados e o metalúrgico aprendeu que a política não se dá bem com a ira
dos sacrificados. Exemplo bastante disso é a convivência, no primeiro escalão, de
antigos guerrilheiros com restolhos das horríveis cavernas mantidas antigamente pelo
autoritarismo, hoje preservadas, quem sabe, para transformação em museus, péssima
idéia, é óbvio, porque ligada a tendências sado-masoquistas de historiador
menos equilibrado.
Diferentemente disso tudo, os parentes dos desaparecidos precisam descobrir-lhes os ossos.
É assim desde que o homem começou a se conhecer. Até para incinerar os corpos o
herdeiro deve rejuntar os ossários, em liturgia que faz esvoaçar a
cinza no vento ou desaparecer no mar, havendo aqueles que preferem a preservação (
inumação ), sabendo-se que flores, árvores e arbustos se desenvolvem muito
bem no solo fértil dos cemitérios. Portanto, os desaparecidos devem ser descobertos.
Leu-se num jornal, dias atrás, comentário do presidente da Comissão dos Mortos e
desaparecidos ou coisa assim, afirmando, cautelosamente, haver dificuldade política no
tratamento dado pelo Executivo a tais pesquisas. Vê-se, de outra parte, protesto
dos parentes quanto à não participação em gripo interministerial
constituído pelo governo para o trato da incômoda particularidade. Dentro
disso, entretanto, há profunda irritação quanto à suavidade, calma e paciência,
dir-se-ia malemolência, com que o metalúrgico trata o tema espinhoso.
Política é assim: em benefício da pátria, torturador e torturado são capazes de
esquecer as dores do alicate, o choque elétrico e o ferro em brasa,
dançando a mesma valsa e comendo o mesmo trigo, tudo em sinal de
paz. Nada se aprova no Senado e na Câmara sem a adesão das lideranças. Nesse
passo, não vale a pena desenterrar defuntos. Lula sabe disso. Não aponta o dedo acusador
contra os antigos adversários. Vai ao cinema com estes, assistindo Terra em Transe,
se preciso for. No meio disso, um guerrilheiro acabrunhado, o Gabeira, que não conheço
mas admiro como bom sonhador, abandona o partido e fica quase só. Também ele, no fim das
contas, como todos nós, tem seus gestos simbólicos.
* Advogado
criminalista em São Paulo há quarenta e quatro anos. Esta crônica é personalíssima.
Retiro meus títulos. |