* Paulo Sérgio Leite Fernandes
Guerrilha do Araguaia
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               Certa vez, lá pelos idos de um mil novecentos e oitenta e poucos, a OAB paulista aproveitou a visita de Hebe Bonafini  (Relembre-se a canção     "Las Locas de Plaza de Mayo" )  para abrir, em cerimônia oficial, uma espécie de "livro negro"  contendo a relação dos mortos e desaparecidos  no entremeio do golpe de 1964. O documento ainda existe. Está nos arquivos da Corporação ou nas gavetas de alguém. Lembram-se daquilo, obviamente, os sobreviventes. Uma ou outra noticia posta, agora já amarelada, nos jornais da época serve, igualmente, de testemunho pouco importante do evento. 

               A aposição do nome dos mortos e desaparecidos no livro negro da OAB constituía, a bem-dizer, um ato simbólico. Lembrava ao governo que a investigação sobre o destino de cada qual seria uma demonstração de sinceridade na redemocratização do pais. Daquela data a esta, na Argentina, "Las Madres" continuam suas passeatas em torno da “Casa Rosada”.  Recordo-me dos primeiros versos da canção que compusemos para elas: " -Só vestem com negro. Os rostos marcados por rugas profundas, os olhos brilhando de ódio e dor, contemplam caladas, doridas, mordidas,  o templo rosado   plantado na praça."   As madres não desistem.  Bateram como água mole em pedra dura (Tanto bate até que fura). Obtiveram, então, a revogação da Lei da Anistia.  Os portenhos, a seguir, procuram afanosamente os carrascos daquele tempo, encontrando um ou outro  servindo de bode expiatório ou exemplo da impossibilidade de perdão.

               O Brasil é diferente. Anistiamos executores e terroristas numa conduta politicamente adequada ms repleta de hipocrisia, pois não se anistia quem jamais foi processado. Com efeito, somente os perseguidos pelo regime ditatorial foram submetidos a processo.   Tinha o sistema, portanto, base para aplicar unilateralmente a legislação nova. Comentou-se, ali, o paradoxo  vertente: na medida em que  qualquer pretensão   no sentido de anistiar precisaria ser jurisdicionalizada. Aplicando-se a decisão judicial a um individuo ou grupo  de pessoas,  nem um só carrasco teria sido objeto  do perdão  em sentido lato, pois  não havia torturador processado. O intento do governo, portanto, foi  risível, adaptando-se exclusivamente aos rebeldes, aos  exilados, aos presos  e aos  rebeldes em geral, todos acionados.

               Daquele pedaço tenebroso da história da pátria restaram poucas mães, pais e irmãos dos mortos e / ou desaparecidos  no Araguaia  (não só lá, com certeza). A obstinação dessas famílias, agrupadas em associação incansável, constitui  um prego no sapato do  presidente da República e  sectários. Não se pensem os observadores que sou inimigo deles. Votei no gajo, a título experimental.  Verifico, entretanto, a continuação de fenômeno mundial: não vale a pena cutucar vespeiro. O governo fez seus acordos, expressos ou tácitos. Presente e passado convivem da melhor forma possível. Razoável porção de egressos da ditadura, uns e outros em decadência física mas ainda ativos, ocupam postos relevantes na Câmara e no Senado. Entrecruzam abraços e permutam posições, porque  os projetos do novo Estado precisam ser aprovados  e o metalúrgico aprendeu que a política não se dá bem com  a ira dos sacrificados. Exemplo bastante disso é a convivência, no primeiro escalão, de antigos guerrilheiros com restolhos das horríveis cavernas mantidas antigamente pelo autoritarismo, hoje  preservadas, quem sabe, para transformação em museus, péssima idéia, é óbvio, porque  ligada a  tendências sado-masoquistas de historiador menos equilibrado.

               Diferentemente disso tudo, os parentes dos desaparecidos precisam descobrir-lhes os ossos. É assim desde que o homem começou a se conhecer. Até para incinerar os corpos o herdeiro deve rejuntar  os ossários,  em liturgia  que faz esvoaçar a cinza no vento ou desaparecer no mar,  havendo aqueles que preferem a preservação ( inumação ),  sabendo-se que  flores, árvores e arbustos se desenvolvem muito bem no solo fértil dos cemitérios. Portanto, os desaparecidos devem ser descobertos. Leu-se num jornal, dias atrás, comentário do presidente da Comissão dos Mortos e desaparecidos ou coisa assim, afirmando, cautelosamente, haver dificuldade política no tratamento dado pelo Executivo a tais pesquisas. Vê-se, de outra parte, protesto   dos parentes quanto à não participação em  gripo interministerial constituído  pelo governo para o trato  da incômoda particularidade. Dentro disso, entretanto, há  profunda irritação quanto à suavidade, calma e paciência, dir-se-ia malemolência, com que  o metalúrgico trata o  tema espinhoso. Política é assim: em benefício da pátria, torturador e torturado são capazes de   esquecer as dores do alicate, o choque elétrico e o ferro em brasa,   dançando  a mesma valsa e comendo  o mesmo trigo,  tudo em sinal de paz. Nada se aprova no Senado e na Câmara sem a adesão das lideranças.  Nesse passo, não vale a pena desenterrar defuntos. Lula sabe disso. Não aponta o dedo acusador contra os antigos adversários. Vai ao cinema com estes, assistindo “Terra em Transe”, se preciso for. No meio disso, um guerrilheiro acabrunhado, o Gabeira, que não conheço mas admiro como bom sonhador, abandona o partido e fica quase só. Também ele, no fim das contas, como todos nós, tem seus gestos simbólicos.      

 * Advogado criminalista em São Paulo há quarenta e quatro anos. Esta crônica é personalíssima. Retiro meus títulos.

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