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As três irmãs satânicas e a Presidência da República

Segundo a “internet” – a “internet” sabe tudo –, a cobiça pela energia nuclear, no Brasil, teve início nos anos 50. Ato seguinte, duas centrifugadoras teriam sido importadas para enriquecimento de urânio. As atividades, até 1969, ficaram ensombrecidas. Entretanto, desenvolvendo-se a ditadura no país, delegou-se às centrais elétricas Furnas SA a tarefa de construir Angra I. Os militares tinham a ideia de produzir submarinos nucleares e armas atômicas. Em 74, ainda de acordo com informações advindas do arquivo eletrônico universal, a ditadura autorizou a construção de Angra II, em adesão à primeira irmã, não totalmente terminada. No ano imediato, o Brasil assinou com a Alemanha acordo de cooperação nuclear, comprometendo-se à aquisição de outras oito usinas nucleares. A farda se orgulharia de ser responsável pela implantação da denominada “Era nuclear brasileira”. A dupla sinistra (Angra I/II) se encontra em plena atividade. Há um monstrinho em gestação, acarinhado pelas madrinhas. É Angra III, posta em berço esplêndido, arremedo mefistofélico do nascimento de um Cristo (Anticristo), lá atrás, ou seja, um demoniozinho gerado em leito venenosíssimo. Em volta, o povo, apreciando o trio, deambula, ama, faz filhos, planta jardins nas encostas e finge desconhecer aquelas duas edificações arredondadas, mais o bebê maquiavélico em gestação no quintal. Um trio diabólico, sim, em cujas entranhas pulula a massa fervente procurando, nas paredes de concreto e chumbo, fissuras permissivas da fuga para o mundo. Curiosamente, ou tragicamente, o fenômeno horrível foi gerado, pela vez primeira, antes do golpe militar de 1964, engravidando-se a primitiva bruxa sob o tacão do militarismo.

         O ser humano é supinamente metafórico. Falou-se em monstruosidades. Procure-se em Mia Couto retrato sofisticado da fabricação e parto das duas satanizadas criaturas, seguindo-se o engravidamento do autêntico terceiro “Bebê de Rosemary”: há aqueles que nascem com defeito. A terceira usina (Angra III) vai nascer por defeito, abandonado o feto, inclusive, por empreiteiras desconsoladas. Um pedaço daquela fábrica demoníaca resta grudado nas entranhas das mães.

         Repudiado qualquer intento de terrorismo intelectual, descrevam-se, sem preocupação quanto às datas das ocorrências, alguns acidentes nucleares mundiais até hoje registrados: a) – Em 1957, a Usina de Mayak sofreu explosão em tanque com 80 toneladas de material radioativo. b) – Em 28 de março de 1979 houve na Pensilvânia o acidente denominado “Three Mile Islands”. c) – Em 1986, Chernobyl lançou ao espaço nuvem radioativa liberando 70 toneladas de urânio e 900 de grafite. Morreram mais de dois milhões de criaturas, fora as não registradas. Aquilo ainda tem vazamentos. Dizem os entendidos que o volume de partículas radioativas em Chernobyl foi quatrocentas vezes maior que o emitido pela bomba atômica de Hiroshima. d) – No entremeio, vieram Tokaimura (1999), Seversk (1993), Yucca Flat (1970), Bohunice (1977) e Fukushima, acidente mais recente (2011), provocando, o último, reação aterrorizada na comunidade internacional.

         O acidente de Chernobyl, estatisticamente, provocou uma porcentagem de seis mil casos de doenças oncológicas para cada cem mil habitantes. Há segredos múltiplos ligados a outras consequências. Aquilo é um deserto mefítico. E vai por aí.

         A crônica referiu, em primeiro lugar, a década de 50, no Brasil. Daquela data a esta, a Presidência da República foi ocupada por Getúlio Vargas, Café Filho, Carlos Luz, Nereu Ramos, Juscelino Kubitschek, Jânio Quadros, Ranieri Mazzilli, João Goulart, Humberto Castelo Branco, Artur da Costa e Silva, Aurélio de Lira Tavares, Augusto Rademaker, Márcio de Sousa Melo, Emílio Garrastazu Médici, Ernesto Geisel, João Figueiredo, José Sarney, Fernando Collor, Itamar Franco, Fernando Henrique Cardoso, Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff. Não se diga que Tancredo foi esquecido. Morreu antes de tomar posse, acidente de percurso assemelhado, em termos de fatalidade, a rachadura qualquer no ventre das três bruxas postas sob comentário (Angra I, Angra II e o pequeno monstro em gestação – Angra III). Como se vê, todos eles, incluindo-se Fernando I e Único, Rei do Brasil, trazendo-se a prumo doutrina pérfida agasalhada por penalistas neonazistas, têm inserção na tese do domínio do fato, responsável, hoje, pela condenação de múltiplos acusados nas operações persecutórias postas em evidência pela imprensa nacional.  As duas irmãs siamesas já funcionando em Angra dos Reis têm bocas cheias voltadas para o mar. Aqueles gases terríveis, contidos nas barrigas inchadas, volteiam coruscantes, pedindo passagem. O povo brasileiro conviveu, silente, com aquilo, passeando com os políticos e militares cujos nomes foram postos no texto da crônica, alguns incensados, outros odiados sim, mas todos, a menos que provem o contrário, carregando, do passado ao presente, a consciência de risco ofertado pelas usinas atômicas bafejando seus humores sinistros. O tempo de vida útil daquele veneno contido, a custo, na barriga das perversas criaturas oscila entre duzentos e trezentos anos, adiantando-se, evidentemente, num futuro apenas pensado. Entretanto, a humanidade, independentemente da finitude, tem sobrevida na imaginação. Dentro do contexto, todos os presidentes passantes pelo país, compreendidos os que rebatiam os coturnos nos corpos dos torturados, são responsáveis pela existência da trindade morfética. Dilma Rousseff não escapa a tal pecado. Embora apedrejada pela maioria da cidadania brasileira, este narrador até a defenderá, se e quando se comprometer a não prosseguir na tarefa de gestar – e terminar – o parto de Angra III. É este, entre todos os outros pecados cometidos pelos que já passaram – e por ela também –, o maior crime a ser averiguado e punido. O futuro dirá.

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