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Mário Sérgio Duarte Garcia é homenageado


Mário Sérgio Duarte Garcia

Homenageado

 

         A Revista do Advogado, edição número 139, correspondendo ao mês de setembro de 2018, traz foto de Mário Sérgio Duarte Garcia, impecável como sempre, discreto sorriso e uma face pensativa desafiando o futuro. A bem-dizer, o olhar do ilustre advogado recompõe o passado. O ser humano é assim: vai ultrapassando verões e invernos, agasalhando o tempo na memória. Chegando a maturidade e aquilo que chamamos envelhecimento, a consciência assume volume ciclópico, incorporado por vários universos recolhidos aqui e ali e integrando, quiçá, a capacidade de sobrevivência.

Recebi a Revista, fixei os olhos na face daquele companheiro e, de repente, o antanho a que me referi voltou ao presente, certificando que uns poucos pedaços de vida são importantíssimos no encaminhamento das criaturas pelo mundo.

Funciona assim. Às vezes um abraço nas horas difíceis, um sorriso carinhoso dirigido ao jovem, uma atenção redobrada durante episódio sofisticado. Aquilo serve, embora poucos percebam, de apoio importante à tarefa de ultrapassamento de dramas empolgando gente machucada.

Mário Sérgio Duarte Garcia é um homem tão bom, tão tranquilo e tão costumeiro nas atitudes cavalheirescas que sequer deve ter percebido, lá atrás, o relevo do abraço estreitando um afago compreensivo e reforçando, na comunhão de sentimentos, a premência que o companheiro tinha de suportar e sublimar a dor sentida pela ausência forçada de Ana Maria Babette, falecida abruptamente. Foi às vésperas da Conferência Nacional dos Advogados, em Manaus. Um ser humano desorientado, perdido nas brumas da fatalidade, deixado à margem da felicidade com três filhos chegando à adolescência. Mário Sérgio liderava aquele congresso importantíssimo, mas não se esqueceu de que os dramas são, repetidamente, enfrentados com atribuição de tarefas exigindo do sofredor, querendo este ou não, o cumprimento de atribuições relevantes. Pareceria, quem sabe, um pouco de imprudência obrigar um desesperado a levar a canoa à frente num mar encapelado, mas assim foi. Uma conferência de advogados, mormente aquela do Manaus, exigia concentração, coragem, equilíbrio e esquecimento dos desastres, reconstruindo o castigado, então, o pouco sobrante para a alimentação do porvir. Mário Sérgio Duarte Garcia fez isto comigo, lá se vão muitos e muitos anos, pondo ao meu lado, como companheiro de viagem, meu filho Gustavo, quase garoto, hoje amadurecido e escudando o pai nas lides da sobrevivência.

Tudo isso passou pela minha memória enquanto visualizava o rosto do meu amigo. Não muito próximos nós dois, nos anos seguintes, mas ambos com uma expressão enigmática, como a se dizerem: “ – Você viu como eu consegui?”

Funciona assim, a existência. Homens e mulheres se constroem ou se fragmentam em poucos segundos. Uns e outros não são esquecidos.

Havia tantos e tantos advogados na Revista número 139 da AASP que muitos não puderam estar presentes, ou não souberam da homenagem. Entretanto, inadmito ficar à margem. Vejo mais uma vez o perfil do meu confrade, de quem sou devedor há seguramente uns 33 anos. Ele enxerga o mundo com uma certa dose de complacência ou tranquilidade. É rosto suave, refletindo toda a nobreza da advocacia. A expressão labial é, ali, o mais importante. Mário Sérgio parece dizer, dirigindo-se a todos, uma frase curta e cheia de bondade. Tomei-a para mim: “Você vê, Paulo Sérgio, estamos nós dois aqui. Somos testemunhas do que já foi e áugures do que vem por aí”. Dizendo-o, me tem como parceiro sobrevivente. Pouco importa que muitos o digam também, mas sou egoísta e intrometido. Posso repartir aquela expressão bondosa e calma. Entretanto, decididamente, brigo pelo aconchego, embora sendo, no final das contas, mais um discípulo dedicado. E la nave vá.

 

 

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