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PICCADILLY CIRCUS

(Roberto Delmanto)

 

Há muitos anos, em Londres, certa noite após o teatro, precisei comprar um analgésico. O taxista que me levava para o hotel, disse que, àquela hora, pouco antes da meia-noite, havia uma farmácia que ficava aberta em Piccadilly Circus, lugar histórico do centro.

Ao lá chegarmos, vi que, do lado de fora, havia uma longa fila de pessoas. Perguntei quem eram, e ele me explicou que se tratava dos viciados de carteirinha. Ou seja, aqueles que passam a comprar as drogas de que necessitam do próprio Governo, sob certas regras, escapando, assim, ao domínio dos traficantes.

Mas a dependência é tão grande que mal podem esperar um novo dia para receber a dose diária…

Tratada como uma questão criminal, quando, na verdade, é de saúde pública, a luta contra as drogas tem sido derrotada no mundo inteiro, apesar dos bilhões de dólares anualmente gastos.

No Brasil não é diferente. A força do tráfico torna-se cada vez maior, alimentando as organizações criminosas na prática de outros graves crimes.

Temos um nó górdio que, como tal, não consegue ser desatado. Como disse uma vez, o contravertido ex-governador do Rio de Janeiro Antony Garotinho, se a polícia, em um só dia, como que por milagre, conseguisse prender todos os traficantes da capital fluminense, os viciados, no dia seguinte, incendiariam a cidade.

Nossa lei atual não é das piores: o dependente químico, assim considerado pericialmente, é inimputável, não sendo punido pela posse do tóxico; o usuário ainda não viciado que possui droga pratica crime, mas não é penalizado com prisão ou multa; já o traficante é punido severamente.

Mas eu indago: de quem o viciado ou o usuário pode comprar o entorpecente, senão dele? Há, portanto, uma contradição em si mesma: a compra não é crime ou não é penalizada, mas a venda o é… E mais, o adquirente sempre corre o risco de, na compra, ser confundido com um traficante.

Os países que adotaram a descriminalização total das drogas não tiveram sucesso. Talvez seja a hora de seguirmos a experiência inglesa.

Poderá ser uma luz no fim desse escuro e terrível túnel, que tem acabado com a vida, a saúde e a própria liberdade de opção de uma parcela cada vez maior da nossa juventude…

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