OS ESOTÉRICOS, O ESCRITOR E O ABRIGO ANTIAÉREO

 Roberto Delmanto

 

            Chama a atenção o fato de nenhum esotérico, como astrólogos, pais e mães de santo e outros, ter previsto a pandemia da Covid-19.

            Nem os intérpretes do maior dos videntes- Nostradamus- apontaram uma previsão sua a respeito.

            Houve, entretanto, uma exceção. O renomado escritor e membro da Academia Brasileira de Letras, Ignácio de Loyola Brandão, em seu último romance, intitulado “Desta Terra Nada Vai Sobrar A Não Ser O Vento Que Sopra Sobre Ela”, lançado em 2018, mas escrito quatro anos antes, imaginou nosso país com um Presidente que não tinha cérebro, sem Ministérios da Saúde e da Educação, vivendo uma grande epidemia, na qual caravanas transportavam mortos e conselheiros do governo promoviam campanhas dizendo: “Não se entregue ao abismo, trabalhe” e “Para frente Brasil, siga”.

            Em entrevista concedida à Folha de São Paulo no último dia 11, Ignácio de Loyola disse que o título do livro é de um poema de Bertolt Brecht sobre a chegada do nazismo à Alemanha.

            Revelou que, ao escrever o livro, em alguns momentos sentiu como se estivesse em transe.

            Durante a 2ª Guerra Mundial, Londres era bombardeada quase que diariamente por foguetes, precursores dos atuais mísseis, lançados pelos nazistas a partir do continente, causando centenas de mortes e dezenas de prédios destruídos.

            Mas a Inglaterra, sob o comando de Churchill e com o exemplo dado pelo rei Jorge VI e pela Rainha-Mãe Elizabeth, que não se ausentaram com as filhas da capital, como o fizeram muitas famílias abastadas, e recebiam a mesma ração diária dada ao povo, resistiu. E, depois, com o apoio dos EUA e de outros aliados, inclusive o Brasil, venceu o nazi-fascismo.

            Desde aquela época, a BBC, rádio oficial britânica, mantinha dois locutores brasileiros para transmitir ao nosso país as notícias diárias da guerra.

            Um deles foi meu saudoso amigo Arthur William Sheppard Jr., um jovem que se tornaria um grande executivo e, depois de aposentado, professor de inglês meu e dos meus filhos Renata, Roberto e Fabio.

            Contou Arthur que ele e o colega, também brasileiro, dividiam o quarto em um edifício no centro de Londres. Quando os foguetes alemães eram detectados pelos radares ingleses, as sirenes tocavam em toda a cidade e, imediatamente, os moradores desciam para os abrigos antiaéreos subterrâneos.

Segundo me relatou, nas primeiras semanas, ao ouvir o alarme, ambos corriam para o abrigo existente no subsolo do prédio. Mas, após um mês, os dois jovens viravam de lado e continuavam a dormir em suas camas…

            Em São Paulo e outras cidades brasileiras parece estar ocorrendo o mesmo. Muitos não sabem se devem ouvir a orientação do Presidente, que apregoa um isolamento vertical, ou seja, apenas do grupo de risco, estimulando a circulação das pessoas e a volta ao trabalho, ou a recomendação do próprio Ministério da Saúde, do Governador, do Prefeito e da quase totalidade dos médicos, que recomendam o isolamento horizontal, ou seja, total, para evitar o colapso hospitalar. E, na dúvida, acabam por desrespeitar a quarentena.

            Outros, como os dois moços brasileiros em Londres durante a 2ª Guerra, parecem ter se acostumado e perdido o medo de morrer, igualmente desrespeitando o isolamento.

            Parafraseando o que Hannah Arendt chamou de banalização do mal durante o nazismo, estaríamos, infelizmente, diante de uma banalização da vida…

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