OS ORADORES

Roberto Delmanto

 

         Desde a Antiguidade, os grandes oradores sempre fascinaram os povos. Embora sem a permanência da palavra escrita, que se perpetua através dos livros, eles são lembrados pelos que os ouviram, tanto na política quanto no Direito.

         Entre estes, o bom rei Henrique IV, que ao final de um duelo oratório entre dois advogados, não se contendo, bradou: “Ambos têm razão” (apud Henri Robert, ‘O Advogado”).

         Para Trotsky, líder bolchevista, “o grande orador, quando fala, por sua garganta passa a voz de Deus.”

         J. Soares de Mello, Professor Catedrático de Direito Penal da USP, ex- Juiz Presidente do I Tribunal do Júri de São Paulo e depois criminalista, afirmou sobre o advogado e a palavra: “Seu rude labor, penosíssimo, de todas as horas, de toda a vida, o advogado o desempenha com a palavra” (Perfis Acadêmicos”, 1957, p.96).

         Na Antiga Roma, duas figuras disputaram o posto de melhor orador político: Cícero e Marco Antonio.

         O primeiro tornou-se famoso, além das notáveis defesas que fez, pelas “Catilinárias”, na verdade discursos político-jurídicos, em que denunciou a conspiração contra a República urdida por Catilina que, ao contrário de Cícero, tinha origem nobre. O início da primeira delas ecoa ainda hoje: “Até quando Catilina, abusarás da nossa paciência?”.

         Marco Antonio, grande general e principal aliado de Júlio César, é autor daquele que, por muitos, é considerado o maior discurso de todos os tempos.

         Quando Júlio César é assassinado a facadas dentro do Senado na trama arquitetada por Cássio e Brutus, este filho adotivo de César, Marco Antonio pede permissão para fazer o elogio fúnebre de César.

         É autorizado a fazê-lo, com a condição de não atacar pessoalmente os assassinos.

         Aceitando a condição imposta, Marco Antonio, com incrível habilidade, vai elogiando Brutus, para logo depois lembrar os feitos de César; passa a fazer o mesmo com Cássio, registrando em seguida as vitórias de César para glória de Roma.

         Pouco a pouco, a comparação entre os assassinos e a vítima vai resultando enormemente favorável a Júlio César. O povo, que fascinado escutava Marco Antonio, acaba por se revoltar contra Brutus e Cássio, que fogem da cidade.

         Modernamente, entraram para a História três discursos políticos:

         O de WinstonChurchill, nomeado Primeiro-Ministro em um governo de coalizão entre os partidos Conservador e Trabalhista, quando a Inglaterra estava prestes a ser invadida pela Alemanha nazista, foi um deles.

         Prometendo apenas “sangue, suor e lágrimas”, reergueu o orgulho britânico, ao dizer que, se preciso, lutariam em cada cidade, cada rua e cada esquina; e que, se derrotados fossem em solo britânico, continuariam a lutar do exterior, mas jamais se renderiam.

         Outro histórico discurso foi pronunciado porMartin Luther King Jr.em Washington, perante uma multidão incalculável, defronte o Monumento a Lincoln, que abolira a escravidão. Nele, o heroico defensor da igualdade racial assim abriu sua emocionante fala, que até agora nos comove: “I have a dream”…(eu tenho um sonho).

         Um terceiro discurso célebre foi o pronunciado por John F. Kennedy, em sua posse na Presidência, quando disse que os outros países não deveriam perguntar o que os Estados Unidos podem fazer por eles, mas o que, juntos, poderiam fazer pela paz mundial.

         Na oratória forense brasileira, são exemplo para as futuras gerações três grandes criminalistas, todos paulistas.

         Um foi Waldir Troncoso Peres que, defendendo um acusado durante a ditadura militar, levou às lágrimas os oficiais que, na 2ª Auditoria do Exército em São Paulo, integravam o Conselho de Sentença.

         Outro, de uma geração anterior, foi meu pai Dante Delmanto. Mestre da argumentação e da prova, sabia aliar à sua formidável técnica uma emoção contida, mas sincera.

         Ao término de um júri em que defendia um passional que assassinara a ex-noiva, conseguindo afastar as qualificadoras do homicídio, ouviu do Juiz Joaquim de Sylos Cintra, que o presidira e depois se tornaria Presidente do Tribunal de Justiça: “O senhor não me convenceu, mas me comoveu. Houve momentos, na tribuna, em que o senhor se transfigurou…”

         O terceiro notável orador, vice-decano dos criminalistas de São Paulo, em plena atividade aos 85 anos, é Paulo Sérgio Leite Fernandes.

         Em uma ocasião, no Tribunal de Justiça paulista, presenciei uma cena inédita nos anais forenses. Findo o prazo regimental de quinze minutos para a sustentação oral, o Presidente da Câmara, encantado com sua oratória, tendo a concordância de seus pares, disse-lhe que poderia prosseguir pelo tempo que quisesse.

         Com a sensibilidade que só os grandes tribunos têm, Paulo Sérgio falou apenas alguns minutos a mais, encerrando sua defesa e alcançando merecida vitória…*

*Roberto Delmanto sabe presentear aniversariante.

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